terça-feira, 12 de março de 2013

mudez

Depois de uma pequena digressão que iniciou com a causa do Big Bang, passava pela extinção dos dinossauros e chegava às tendências obscurantistas das igrejas cristãs neopentecostais, ele se viu obrigado a fumar.
Fumar, fumar... Não havia nada melhor para o momento. Aliás, não havia outra coisa a se fazer. Deitados na cama, nus, o que mais existia entre ambos eram assuntos assexuados.
De pé, a beira da janela entre-aberta, acendia um cigarro. Resmungava sobre o tempo nublado e levemente chuvoso que há dias ocupava o seu humor. Ouvia que ela, na cama, ressonava levemente, dormindo entre um piscar de olhos e outro.
"Penso que essa chuva não vá parar tão cedo..."
"É sempre assim nessa época. Não é novidade..."
A falta de assunto pesava toneladas e criava um clima estranho, como se os dois não se conhecessem mais tão bem quanto antes. Entrava pela janela um leve vento frio, que raspava o seu flanco e fluía contra ela, na cama. Um arrepio gostoso descia da região dorsal até atrás do joelho esquerdo, fazendo os pelos se eriçarem prazerosamente.
Essa falta de assunto causava-lhe agonia e parecia ser preenchida com olhares avaliadores, profundos, que tentavam sondar o seu íntimo. Não se sentia à vontade.
"Não acha estranho isso tudo?"
"Isso o que? Nossa mudez?"
"Sim. Essa mudez. Não éramos assim. Conversávamos mais. Sei lá."
A explicitação do que o incomodava era uma tentativa de se sentir menos deslocado no ambiente. Pensava em pôr a roupa e ir embora. Descer para o café no térreo e beber litros de capuccino.
"Talvez tenhamos intimidade suficiente para nos permitir não falar mais nada..."
Essa frase, solta depois de uma pausa longa soou como um tiro. É como se fosse tão, mas tão evidente que nunca percebeu jazer sob seu nariz.
Verdade.
Eram tão íntimos que não precisavam mais de palavras. Elas já eram inúteis para mensurar o que possuíam.
E então, dali em diante, ouvia-se apenas a chuva.

2 comentários:

Pedro Luiz Da Cas Viegas disse...

Conversas, por vezes, apenas estragam momentos.

sérgio disse...

O silencio incomoda quando revestido de vazio.