terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Antiguidades

Ofuscavam os olhos uma miríade de pequenos sóis e uma claridade, cegante, dava bom dia ao homem aturdido, que acordava em meio a uma pedregosa ravina. Acostumando-se à luz, os olhos já enxergavam as pedras que se erguiam altas em redor, equilibrando-se uma sobre a outra como os malabares dos circenses.
Procurava, ainda deitado na ravina, uma ideia de onde poderia estar. Não encontrava na mente lembrança coerente do que havia ocorrido depois da tempestado no mar. Saíram de Otranto e, ele ao menos, tinha como destino final Mistra. Visitaria o Déspota de Morea, levando novas acerca do tratado secreto com os patrícios locais.
Sentando-se, viu que se aproximavam pessoas, três, que vinham cabisbaixas e sem nada nas mãos. Pensou na possibilidade de ser sobreviventes do mesmo naufrágio que ele, o que descartou logo em seguida, visto ter percebido serem apenas pastores da região. Traziam cajados e trajavam roupas simples e ao serem indagados responderam em um grego que soava estranho ao ouvido do náufrago. Definitivamente não era o romaico da corte bizantina...
Tentavam explicar, gritando, que ali ainda estava em terra do basileu. Mas onde? Provavel que fosse no Meio-dia e não no Épiro... Mas onde? Precisava chegar a tempo com os pergaminhos! Os pergaminhos! Procurando em sua roupa rica e esfarrapada, apalpava-se lembrando da importância dos documentos. E agora perguntava sobre o mar, em que direção ficava? Como foi parar na ravina? E os pastores indicavam com os cajados a direção do oceano.
Pôs-se de pé rapidamente e, estropiado e dolorido, saiu correndo o mais depressa que podia. Correu até cansar. Começou a caminhar e assim permaneceu por mais um tempo, seguindo a ravina que parecia uma chaga aberta no chão, um talho de uma adaga, reta até desembocar sabe-se lá aonde. Ladeavam-na apenas rochas equilibradas toscamente sobre outras e paredões que eram moradias de aves de rapina. Quando acordou o sol estava no zênite; agora faltava pouco para o fim do dia.
Avistou o mar assim que a rovina fez uma leve curva para o poente. Azul, brilhava com os últimos estertores do sol. Ali, no fim da ravina encontrou os corpos dos companheiros e, um pouco para dentro do mar, presa em pedras pontiagudas que um dia habitaram na continuidade da ravina, a galé em frangalhos. As velas rasgadas, os remos partidos, e uma grande pedra enfiada como uma grande presa de javali a estibordo.
Prostrou-se e chorou. O que fazer? Por onde começar a procurar as cartas remanescentes? Aliás, como chegar ao destino e contar tamanha desgraça ao messer Paleólogo?
Atirou-se na água, que dava pela cintura e ávido por uma solução, dirigia-se para a galé que jazia nos esporões da rovina. As últimas luzes do dia deixavam o quadro mais desesperador, emprestavam um ar mais trágico.
Em meio a pensamentos confusos ouviu gritos. Ou melhor, saudações, na sua língua materna. Parou onde estava como que para ouvir melhor. Sim, eram para ele e eram em sua língua. Pareciam vir do céu, não do navio. Soavam ao escurecer e soavam como dentro de uma igreja, como um antigo hino ao Pantocrator.
Chorava copiosamente, parado em meio ao mar. As mãos postas sobre os olhos. Era Miguel que o veio salvar. Era Miguel, o protetor de sua casa!

Um comentário:

Pedro Luiz Da Cas Viegas disse...

Quando menos esperamos, nossos anjos e arcanjos nos vêm em auxílio.