sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

repristinação - texto antigo I

anunciação

era um sonho dentro de outro. havia algo de profético e de insano, afinal ambos se confundem no mais das vezes. da terra árida brotavam galhos contorcidos de uma árvore desconhecida e o céu era profundamente azul. cheirava o ar, suspenso, quente, a pó. como se tudo houvesse iniciado naquele instante e dos montes próximos descido pela própria mão de algum Deus o Homem que era.
dos dentes nascidos dos seixos e das mãos nascidas do firmamento, pelos poros fartos de suor gritavam, em êxtase, os sinais da revelação. Homem que desde a eternidade se estendia ao grão mais minúsculo de pó!
descendo da montanha se fez a si, sem ter se procurado. a serpente o reconheceu, o chacal o saudou, a águia o nomeou...
e em mil arraiais perdidos perambulando solitário, abrindo sendas, tinha o poder da transmutação aprendido com os alquimistas que não mais existiam e que viviam dentro de si. e à imitação do cacto só sabia ferir os que chegavam...
e no caminho encontrava sua casa de taipa e sapê, leito raso com travesseiro de palha: o dormir ali já produzia sonhos emaranhados como os cabelos de quem havia amado uma vez... encontrar-se divagando em um dia, à noite, solto em um mundo sem cercas e tapumes!
mais adiante, sentou-se à porta do fundo da tapera. mirava o sol, com a mão em concha sobre os olhos. o sol a sua frente serpenteava, e subitamente começou a tomar formas humanas. aos poucos vinha um corpo alado descendo suavemente em sua direção e o cheiro de pó se dissipava substituído pelo de mirra. as árvores retorcidas contorciam-se em uma dança elegante e lenta.
o anunciante portava espada em uma mão e uma trombeta em outra e mirava nos olhos do Homem. dizia que era a primeira visita, a primeira e haveriam mais duas: os cabelos ardentes esvoaçavam e não se sabia se havia sexo. a voz soava na mente e retrocedendo voltou ao sol, sempre mirando nos olhos...
sumindo o anunciante, se foi o Homem pelos montes caminhando e em uma noite se lembrou. carregava um trombeta que fez soar avisando ao povoado que chegava.

2 comentários:

Jones Mariel Kehl disse...

Muito bom! Me lembrou Saramago em "Caim".

neTrop!k@lista disse...

eu lembro deste texto! :3