quarta-feira, 9 de outubro de 2013

sob condição

amar sob condição não é amar.
ter amor àquele que nos é útil não é ter amor.
amar pessoas esperando que elas sejam perfeitas não é amar.
amor a uma idéia de pessoa não é amor.
amar a beleza de alguém não é amar.
confundir amor com altruísmo é não saber o que é amor.
amar porque é da mesma religião não é amar.
supor que o amor é apenas sexo é não saber o que é o amor.
amar uma parte não é amar a verdade.
amor não tem direção, não mira o alvo, não deseja ser sentido por um alguém determinado, acabado, polido e perfeito.
amar não é ter piedade, não é compaixão, não é amar o sujeito ideal.
esse sentimento é mais, é além.
amor é amor pela realidade - nua e crua - pelo que a pessoa é.
amar é ver o outro e aceitar profundamente tudo o que há de bom e o que há de "ruim", simplesmente porque é um sentimento tão grande que todo os "adereços" não importam.
não se tem amor pela metade: ou é amor ou não é. não há amor por alguém que é negro, se não se ama a cor escura juntamente com a pessoa. não se ama um homossexual se junto com esse amor não vem a aceitação. não se ama alguém feio se não aceitar sua feiura. não se ama um baixinho, se não se amar sua pouca estatura. não se ama o outro sem aceitá-lo e amá-lo por inteiro.
amar pela metade não é amar.
amor sob condição não é amor.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

serra do esquecimento

todas as disformias do espírito se ajuntavam na tardinha... como um ciciar de cigarras que começava de leve, baixinho, e ia ficando estridente, estridulando pensamentos agudos, desesperos sem-fim, revoluções...
e numa tarde quente de verão, abafada e cheia de vapores, notou o sol caindo por entre nuvens finas, que se manchavam de cor de ouro: lembra de ter subido daquela direção, inquieto, a procura das riquezas, das pedras que se alojavam no seio daquelas outras duras e empinadas...
fazia tempo e não havia encontrado nada, nem riqueza, nem pedras raras, nem ouro... mas ficara por ali, naquela cidade. 
tinha encontrado, se é que podia dizer dessa forma, alguém com que compartilhar a sua pobreza, ou antes, o seu desencontro... não sabia bem como aconteceu: se achou ou foi achado; apenas que aconteceu num sem fim de tempo, que todo somado foi dar no dia de hoje (quando já ama).
uma noite quente, logo quando veio de uma planície em que procurava raridades, encontrou uma de outro tipo que não esperava. em um posto velho de beira de estrada... foi só a olhar para esquecer todo o resto da vida de antes... mas veio junto o medo, galopando num sorriso, montado no vento fino e quente que soprava...
"mais?" sim, mais "água". a noite quente levantava os desejos, aquecia a carne. mas ela tinha um ar de anjo... mas, foi mais um "mais?" e ela já era imaginada como um pequeno diabinho, que sorrindo, brincava com o sentimento do caboclo. 
"o que fazer?"
...
olhava e sorria, como saudando os horizontes que tinham o empurrado até ali... sentiu cócegas na cintura descoberta: era uma mão leve e anunciava um abraço firme e um beijo na nuca...
era difícil imaginar a vida sem essa riqueza: todas as outras ficaram desimportantes. a alma só pediu o beijo, só pediu entendimento...
coçando a barba do queixo, virou-se "vamos pro poente? às vezes tenho saudade de ver o que era antes..."

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

começava como num surto
desciam às mãos palavras
corriam rios de memórias
e afundavam a boca em beijos eternos...
onde andavam os lábios, além de na saudade?
enfileirava idéias como soldados em formação
e elas avançavam papel a fora,
deitavam à terra os corpos dos amados,
matavam os corações,
estraçalhavam os semblantes,
cavavam trincheiras para as lágrimas
(ou para o suor)
doíam doíam
cansavam as mãos, os dedos, os pés
que corriam para o sem fim da folha
para o sem fim do mundo
onde estavam todas as memórias?
queria amarrá-las em feixes de papéis
pilhas, volumes, tomos,
uma enciclopédia de si,
uma drama de si,
desciam aos dedos,
que sentiam a ânsia,
o frenesi e o êxtase passado.
lembrar para se esquecer:
esse era o início da linha
e esse o fim.
os sentimentos?
- meios.

domingo, 26 de maio de 2013

o silêncio de dentro da semente guarda o mistério,
o barulho de mais um universo surgindo,
o som de um surdo marcando os passos,
o fim do torpor, o início, o acrotério:

e, superada a dor de romper a casca dura,
impulsa a vontade do exterior a ser desbravado,
e a luz jorrando entre os grãos de terra,
dá a força para enfrentar as agruras.

o silêncio a faz brotar, contorcer-se,
esquivar-se, enraizar-se e aninhar-se,
e onde antes havia somente terra bruta,
silente, do ventre do grão, vem a vida,

frágil, minúscula, eterna:
por amor ao universo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

As coisas acontecem na nossa vida sem ao menos supeitarmos da sua iminência.
É como uma grande barreira, de uma represa enorme, que arrebenta a cada dia.
Não temos como prever, não temos como evitar.
E a vida, ao cabo, é isso: lidar com as imprevisões...
Você não sabe. Não sabe quando vai perder o emprego, a cabeça, os documentos, o jornal matinal, a hora, o pai ou a mãe.
Mas uma certeza podemos ter; um dia tudo isso acontecerá.
Pode ser hoje, ou amanhã.
É inexorável e é da vida.
Aos poucos vamos aprendendo a aceitar esse mistério, a ser respeitoso com isso a que alguns dão o nome de destino, outros de tempo e outros de fortuna.
Você vai fazer o quê frente ao inevitável? Chorar como uma criança? Calar como um estóico? Brigar pelo que não têm solução?
E no fim percebe-se que o melhor a fazer é juntar os cacos e continuar em frente. Do jeito que é possível, com o que se tem em mãos no momento...
É assim que nascem os heróis: do improviso, do medo do que se apresentará no próximo instante e da decisão de dar o passo a esse futuro incerto.
É como uma trilha escura, pela qual carregamos um pequena lanterna que ilumina o mínimo possível.
.
E não adianta fugir dos medos.
Não adianta fugir das situações que você não resolveu.
Um dia o tigre se porá em sua frente e você terá que domá-lo.
E aí será da forma mais difícil, da forma mais dolorosa.
E não importa quantas lágrimas correrão. Elas lavarão e cicatrizarão as feridas do passado para possibilitar um futuro melhor.
Quanto mais jovem o tigre, mais fácil adestrá-lo, amansá-lo.
Correr não resolve.
Fique e enfrente.


terça-feira, 12 de março de 2013

mudez

Depois de uma pequena digressão que iniciou com a causa do Big Bang, passava pela extinção dos dinossauros e chegava às tendências obscurantistas das igrejas cristãs neopentecostais, ele se viu obrigado a fumar.
Fumar, fumar... Não havia nada melhor para o momento. Aliás, não havia outra coisa a se fazer. Deitados na cama, nus, o que mais existia entre ambos eram assuntos assexuados.
De pé, a beira da janela entre-aberta, acendia um cigarro. Resmungava sobre o tempo nublado e levemente chuvoso que há dias ocupava o seu humor. Ouvia que ela, na cama, ressonava levemente, dormindo entre um piscar de olhos e outro.
"Penso que essa chuva não vá parar tão cedo..."
"É sempre assim nessa época. Não é novidade..."
A falta de assunto pesava toneladas e criava um clima estranho, como se os dois não se conhecessem mais tão bem quanto antes. Entrava pela janela um leve vento frio, que raspava o seu flanco e fluía contra ela, na cama. Um arrepio gostoso descia da região dorsal até atrás do joelho esquerdo, fazendo os pelos se eriçarem prazerosamente.
Essa falta de assunto causava-lhe agonia e parecia ser preenchida com olhares avaliadores, profundos, que tentavam sondar o seu íntimo. Não se sentia à vontade.
"Não acha estranho isso tudo?"
"Isso o que? Nossa mudez?"
"Sim. Essa mudez. Não éramos assim. Conversávamos mais. Sei lá."
A explicitação do que o incomodava era uma tentativa de se sentir menos deslocado no ambiente. Pensava em pôr a roupa e ir embora. Descer para o café no térreo e beber litros de capuccino.
"Talvez tenhamos intimidade suficiente para nos permitir não falar mais nada..."
Essa frase, solta depois de uma pausa longa soou como um tiro. É como se fosse tão, mas tão evidente que nunca percebeu jazer sob seu nariz.
Verdade.
Eram tão íntimos que não precisavam mais de palavras. Elas já eram inúteis para mensurar o que possuíam.
E então, dali em diante, ouvia-se apenas a chuva.