Depois de uma pequena digressão que iniciou com a causa do Big Bang, passava pela extinção dos dinossauros e chegava às tendências obscurantistas das igrejas cristãs neopentecostais, ele se viu obrigado a fumar.
Fumar, fumar... Não havia nada melhor para o momento. Aliás, não havia outra coisa a se fazer. Deitados na cama, nus, o que mais existia entre ambos eram assuntos assexuados.
De pé, a beira da janela entre-aberta, acendia um cigarro. Resmungava sobre o tempo nublado e levemente chuvoso que há dias ocupava o seu humor. Ouvia que ela, na cama, ressonava levemente, dormindo entre um piscar de olhos e outro.
"Penso que essa chuva não vá parar tão cedo..."
"É sempre assim nessa época. Não é novidade..."
A falta de assunto pesava toneladas e criava um clima estranho, como se os dois não se conhecessem mais tão bem quanto antes. Entrava pela janela um leve vento frio, que raspava o seu flanco e fluía contra ela, na cama. Um arrepio gostoso descia da região dorsal até atrás do joelho esquerdo, fazendo os pelos se eriçarem prazerosamente.
Essa falta de assunto causava-lhe agonia e parecia ser preenchida com olhares avaliadores, profundos, que tentavam sondar o seu íntimo. Não se sentia à vontade.
"Não acha estranho isso tudo?"
"Isso o que? Nossa mudez?"
"Sim. Essa mudez. Não éramos assim. Conversávamos mais. Sei lá."
A explicitação do que o incomodava era uma tentativa de se sentir menos deslocado no ambiente. Pensava em pôr a roupa e ir embora. Descer para o café no térreo e beber litros de capuccino.
"Talvez tenhamos intimidade suficiente para nos permitir não falar mais nada..."
Essa frase, solta depois de uma pausa longa soou como um tiro. É como se fosse tão, mas tão evidente que nunca percebeu jazer sob seu nariz.
Verdade.
Eram tão íntimos que não precisavam mais de palavras. Elas já eram inúteis para mensurar o que possuíam.
E então, dali em diante, ouvia-se apenas a chuva.
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terça-feira, 12 de março de 2013
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
"Filho de chocadeira". Era a frase que gritava em sua cabeça desde antes de abrir os olhos, que doíam profundamente. Era a ressaca, conhecida de anos.
Quando abriu, finalmente, os olhos se viu na cama em meio a um mar de plumas vermelhas da estola da noite anterior e roupas espalhadas pelo quarto todo. E nenhum sinal de mais ninguém dentro do apartamento.
A boca e a garganta secas pediam água. Levantou-se como estava, sem roupas, e caminhou até a cozinha lentamente. A sensação era de como se estivesse caminhando há horas, por léguas sem fim. Passou na sala e viu sapatos, que não conhecia. Parou alguns segundos, os observou (sem forças mesmo para se perguntar de quem seriam - só os observou) e seguiu o trajeto até a fonte de água fria mais próxima, na cozinha.
Chegando a um corredor que levava até a cozinha e até a porta de entrada do apartamento, do outro lado, a viu aberta para o corredor comum do prédio. Uma família vizinha entrava em uma porta qualquer e o avistou, nu. Todos pararam e o observaram e ele os observava de volta, sem entender o porquê da surpresa. Seguiu até a geladeira, pegou uma garrafa d'água e bebeu dali, sem copo e sem maiores cerimônias, afinal estava seco.
A sede era tamanha que mesmo bebendo a água ela parecia não o saciar. Em um impulso estranho ergueu sobre a cabeça a garrafa d'água e tomou um banho ali mesmo, na cozinha. Quando terminou a "ducha", pensou que poderia haver algo estranho consigo. Nunca agira daquela forma. E com a porta da geladeira sendo segurada, meditava sobre o que havia se passado na noite anterior para se encontrar naquele estado. Meditava.
Um som estranho começou a se tornar incômodo. Vinha da rua e, num impulso natural, voltou a cabeça para a janela mais próxima, que estava com as persianas levantada. Viu que era cedo da manhã, pois a luz era tênue, como num amanhecer.
Onde estavam todos? Onde estava seu amigo que dividia o apartamento com ele? Onde estavam seus amigos que saíram com ele para a festa?
Um súbito ânimo o tomou de assalto e, rapidamente, se encontrava em seu quarto procurando pelo celular. No entanto, não o encontrava. Procurou debaixo da cama, no armário, em gavetas, no meio das plumas vermelhas. Nada. Absolutamente nada. Foi quando reconheceu uma música: era o toque do seu aparelho. Procurava, procurava e a música insistia em tocar. Até que encontrou dentro do bolso da jaqueta, que juntamente com o celular tinha algo que se parecia com um chiclete mascado e grudento.
"Alô?"
"Oi! Finalmente você atendeu, seu seu..."
"Tudo bem, Janis? Estou acordando agora... onde vocês estão?"
"Agora? Finalmente, não é? Achei que tinha morrido!"
"Ah que exagero! Olha só! É cedo até... nem dormi muito..."
"Como assim? Não é cedo da manhã: está anoitecendo! Você estava dormindo há dois dias!"
"Oi?"
Não conseguia crer. Nunca fez isso. Bom, agora ao menos sabia como era dormir esse tempo todo. Sorrindo foi verificar na agenda do celular.
Sim. Havia dormido dois dias!
Mas algo aconteceu. Estava com roxos que não fazia ideia de onde vinham... E sapatos que não conhecia na sua sala e vizinhos que o encaravam sem absolutamente nenhum motivo!
Algo acontecia no mundo. E ele investigaria!
Quando abriu, finalmente, os olhos se viu na cama em meio a um mar de plumas vermelhas da estola da noite anterior e roupas espalhadas pelo quarto todo. E nenhum sinal de mais ninguém dentro do apartamento.
A boca e a garganta secas pediam água. Levantou-se como estava, sem roupas, e caminhou até a cozinha lentamente. A sensação era de como se estivesse caminhando há horas, por léguas sem fim. Passou na sala e viu sapatos, que não conhecia. Parou alguns segundos, os observou (sem forças mesmo para se perguntar de quem seriam - só os observou) e seguiu o trajeto até a fonte de água fria mais próxima, na cozinha.
Chegando a um corredor que levava até a cozinha e até a porta de entrada do apartamento, do outro lado, a viu aberta para o corredor comum do prédio. Uma família vizinha entrava em uma porta qualquer e o avistou, nu. Todos pararam e o observaram e ele os observava de volta, sem entender o porquê da surpresa. Seguiu até a geladeira, pegou uma garrafa d'água e bebeu dali, sem copo e sem maiores cerimônias, afinal estava seco.
A sede era tamanha que mesmo bebendo a água ela parecia não o saciar. Em um impulso estranho ergueu sobre a cabeça a garrafa d'água e tomou um banho ali mesmo, na cozinha. Quando terminou a "ducha", pensou que poderia haver algo estranho consigo. Nunca agira daquela forma. E com a porta da geladeira sendo segurada, meditava sobre o que havia se passado na noite anterior para se encontrar naquele estado. Meditava.
Um som estranho começou a se tornar incômodo. Vinha da rua e, num impulso natural, voltou a cabeça para a janela mais próxima, que estava com as persianas levantada. Viu que era cedo da manhã, pois a luz era tênue, como num amanhecer.
Onde estavam todos? Onde estava seu amigo que dividia o apartamento com ele? Onde estavam seus amigos que saíram com ele para a festa?
Um súbito ânimo o tomou de assalto e, rapidamente, se encontrava em seu quarto procurando pelo celular. No entanto, não o encontrava. Procurou debaixo da cama, no armário, em gavetas, no meio das plumas vermelhas. Nada. Absolutamente nada. Foi quando reconheceu uma música: era o toque do seu aparelho. Procurava, procurava e a música insistia em tocar. Até que encontrou dentro do bolso da jaqueta, que juntamente com o celular tinha algo que se parecia com um chiclete mascado e grudento.
"Alô?"
"Oi! Finalmente você atendeu, seu seu..."
"Tudo bem, Janis? Estou acordando agora... onde vocês estão?"
"Agora? Finalmente, não é? Achei que tinha morrido!"
"Ah que exagero! Olha só! É cedo até... nem dormi muito..."
"Como assim? Não é cedo da manhã: está anoitecendo! Você estava dormindo há dois dias!"
"Oi?"
Não conseguia crer. Nunca fez isso. Bom, agora ao menos sabia como era dormir esse tempo todo. Sorrindo foi verificar na agenda do celular.
Sim. Havia dormido dois dias!
Mas algo aconteceu. Estava com roxos que não fazia ideia de onde vinham... E sapatos que não conhecia na sua sala e vizinhos que o encaravam sem absolutamente nenhum motivo!
Algo acontecia no mundo. E ele investigaria!
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Antiguidades
Ofuscavam os olhos uma miríade de pequenos sóis e uma claridade, cegante, dava bom dia ao homem aturdido, que acordava em meio a uma pedregosa ravina. Acostumando-se à luz, os olhos já enxergavam as pedras que se erguiam altas em redor, equilibrando-se uma sobre a outra como os malabares dos circenses.
Procurava, ainda deitado na ravina, uma ideia de onde poderia estar. Não encontrava na mente lembrança coerente do que havia ocorrido depois da tempestado no mar. Saíram de Otranto e, ele ao menos, tinha como destino final Mistra. Visitaria o Déspota de Morea, levando novas acerca do tratado secreto com os patrícios locais.
Sentando-se, viu que se aproximavam pessoas, três, que vinham cabisbaixas e sem nada nas mãos. Pensou na possibilidade de ser sobreviventes do mesmo naufrágio que ele, o que descartou logo em seguida, visto ter percebido serem apenas pastores da região. Traziam cajados e trajavam roupas simples e ao serem indagados responderam em um grego que soava estranho ao ouvido do náufrago. Definitivamente não era o romaico da corte bizantina...
Tentavam explicar, gritando, que ali ainda estava em terra do basileu. Mas onde? Provavel que fosse no Meio-dia e não no Épiro... Mas onde? Precisava chegar a tempo com os pergaminhos! Os pergaminhos! Procurando em sua roupa rica e esfarrapada, apalpava-se lembrando da importância dos documentos. E agora perguntava sobre o mar, em que direção ficava? Como foi parar na ravina? E os pastores indicavam com os cajados a direção do oceano.
Pôs-se de pé rapidamente e, estropiado e dolorido, saiu correndo o mais depressa que podia. Correu até cansar. Começou a caminhar e assim permaneceu por mais um tempo, seguindo a ravina que parecia uma chaga aberta no chão, um talho de uma adaga, reta até desembocar sabe-se lá aonde. Ladeavam-na apenas rochas equilibradas toscamente sobre outras e paredões que eram moradias de aves de rapina. Quando acordou o sol estava no zênite; agora faltava pouco para o fim do dia.
Avistou o mar assim que a rovina fez uma leve curva para o poente. Azul, brilhava com os últimos estertores do sol. Ali, no fim da ravina encontrou os corpos dos companheiros e, um pouco para dentro do mar, presa em pedras pontiagudas que um dia habitaram na continuidade da ravina, a galé em frangalhos. As velas rasgadas, os remos partidos, e uma grande pedra enfiada como uma grande presa de javali a estibordo.
Prostrou-se e chorou. O que fazer? Por onde começar a procurar as cartas remanescentes? Aliás, como chegar ao destino e contar tamanha desgraça ao messer Paleólogo?
Atirou-se na água, que dava pela cintura e ávido por uma solução, dirigia-se para a galé que jazia nos esporões da rovina. As últimas luzes do dia deixavam o quadro mais desesperador, emprestavam um ar mais trágico.
Em meio a pensamentos confusos ouviu gritos. Ou melhor, saudações, na sua língua materna. Parou onde estava como que para ouvir melhor. Sim, eram para ele e eram em sua língua. Pareciam vir do céu, não do navio. Soavam ao escurecer e soavam como dentro de uma igreja, como um antigo hino ao Pantocrator.
Chorava copiosamente, parado em meio ao mar. As mãos postas sobre os olhos. Era Miguel que o veio salvar. Era Miguel, o protetor de sua casa!
Procurava, ainda deitado na ravina, uma ideia de onde poderia estar. Não encontrava na mente lembrança coerente do que havia ocorrido depois da tempestado no mar. Saíram de Otranto e, ele ao menos, tinha como destino final Mistra. Visitaria o Déspota de Morea, levando novas acerca do tratado secreto com os patrícios locais.
Sentando-se, viu que se aproximavam pessoas, três, que vinham cabisbaixas e sem nada nas mãos. Pensou na possibilidade de ser sobreviventes do mesmo naufrágio que ele, o que descartou logo em seguida, visto ter percebido serem apenas pastores da região. Traziam cajados e trajavam roupas simples e ao serem indagados responderam em um grego que soava estranho ao ouvido do náufrago. Definitivamente não era o romaico da corte bizantina...
Tentavam explicar, gritando, que ali ainda estava em terra do basileu. Mas onde? Provavel que fosse no Meio-dia e não no Épiro... Mas onde? Precisava chegar a tempo com os pergaminhos! Os pergaminhos! Procurando em sua roupa rica e esfarrapada, apalpava-se lembrando da importância dos documentos. E agora perguntava sobre o mar, em que direção ficava? Como foi parar na ravina? E os pastores indicavam com os cajados a direção do oceano.
Pôs-se de pé rapidamente e, estropiado e dolorido, saiu correndo o mais depressa que podia. Correu até cansar. Começou a caminhar e assim permaneceu por mais um tempo, seguindo a ravina que parecia uma chaga aberta no chão, um talho de uma adaga, reta até desembocar sabe-se lá aonde. Ladeavam-na apenas rochas equilibradas toscamente sobre outras e paredões que eram moradias de aves de rapina. Quando acordou o sol estava no zênite; agora faltava pouco para o fim do dia.
Avistou o mar assim que a rovina fez uma leve curva para o poente. Azul, brilhava com os últimos estertores do sol. Ali, no fim da ravina encontrou os corpos dos companheiros e, um pouco para dentro do mar, presa em pedras pontiagudas que um dia habitaram na continuidade da ravina, a galé em frangalhos. As velas rasgadas, os remos partidos, e uma grande pedra enfiada como uma grande presa de javali a estibordo.
Prostrou-se e chorou. O que fazer? Por onde começar a procurar as cartas remanescentes? Aliás, como chegar ao destino e contar tamanha desgraça ao messer Paleólogo?
Atirou-se na água, que dava pela cintura e ávido por uma solução, dirigia-se para a galé que jazia nos esporões da rovina. As últimas luzes do dia deixavam o quadro mais desesperador, emprestavam um ar mais trágico.
Em meio a pensamentos confusos ouviu gritos. Ou melhor, saudações, na sua língua materna. Parou onde estava como que para ouvir melhor. Sim, eram para ele e eram em sua língua. Pareciam vir do céu, não do navio. Soavam ao escurecer e soavam como dentro de uma igreja, como um antigo hino ao Pantocrator.
Chorava copiosamente, parado em meio ao mar. As mãos postas sobre os olhos. Era Miguel que o veio salvar. Era Miguel, o protetor de sua casa!
sábado, 27 de outubro de 2012
verão
"nos desencontros de tantos abraços vazios, sempre há sentimento.
era simples: não deveriam ser aqueles."
E quando o tempo passou, ele viu que era somente certos abraços que desejava. Uma cada vez maior vontade de se deixar envolver...
Nessa época que cheirava a manga e laranjas-do-céu, encontrou o firmamento nos braços de quem jamais imaginara... E sempre querendo mais, andava pelos cantos, choroso.
Choroso pela mais extrema alegria que, inimaginada, fazia-se maior do que supunha possível. Os planos e os motivos do futuro ganhavam contornos simples, modestos, justamente porque o mais ambicionado já possuíam - braços firmes para abraçar e prender pelo tempo que fosse necessário um ao outro.
E iam com sorrisos indisfarçáveis pelas ruas do verão, com o calor do mistério no coração e com luz nos olhos marejados.
O mundo parecia exultar e exuberante oferecia cores vivazes aos dois.
Tomates rubros para a salada, abacaxis perfumados para as tardes de domingo, os kiwis verdes e raiados para os lábios úmidos, as laranjas frescas para os sucos das manhãs, pimentas malagueta, alfaces roxas, árvores pintadas de lilás, o céu azul-profundo... Uma celebração à vida se juntava aos sentimentos, tornando tudo cinematográfico!
Já não era nada gris... Os abraços certos vieram no verão, quentes como a estação.
era simples: não deveriam ser aqueles."
E quando o tempo passou, ele viu que era somente certos abraços que desejava. Uma cada vez maior vontade de se deixar envolver...
Nessa época que cheirava a manga e laranjas-do-céu, encontrou o firmamento nos braços de quem jamais imaginara... E sempre querendo mais, andava pelos cantos, choroso.
Choroso pela mais extrema alegria que, inimaginada, fazia-se maior do que supunha possível. Os planos e os motivos do futuro ganhavam contornos simples, modestos, justamente porque o mais ambicionado já possuíam - braços firmes para abraçar e prender pelo tempo que fosse necessário um ao outro.
E iam com sorrisos indisfarçáveis pelas ruas do verão, com o calor do mistério no coração e com luz nos olhos marejados.
O mundo parecia exultar e exuberante oferecia cores vivazes aos dois.
Tomates rubros para a salada, abacaxis perfumados para as tardes de domingo, os kiwis verdes e raiados para os lábios úmidos, as laranjas frescas para os sucos das manhãs, pimentas malagueta, alfaces roxas, árvores pintadas de lilás, o céu azul-profundo... Uma celebração à vida se juntava aos sentimentos, tornando tudo cinematográfico!
Já não era nada gris... Os abraços certos vieram no verão, quentes como a estação.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
ceia
pairavam em alguma nuvem os castelos erguidos durante os tempos de adolescência - que estavam se acabando fazia uns vários anos... e pairavam nas nuvens do cigarro de canela que fumava à beira da janela, com as luzes da cidade ao fundo.
a música, leve, única, dava à atmosfera um tom pastel de uma pintura francesa. os modos e os gestos se confundiam com a beleza dos olhos, molduras perfeita para um espírito inquieto e incessantemente questionador.
era madrugada alta quando, com exíguas roupas - uma cueca e uma camiseta de algodão - , se punha a fumar de pernas cruzadas: um lord... questionava os acontecimentos recentes, de forma preguiçosa e hesitante. questionar? não questionar?
"ahh só havia acontecido... deixemos assim..."
todos se olhavam displicentes mastigando as interrogações e partindo definitivamente para o exaurimento. não valia a pena justificar. não valia a pena perguntar: a noite era dos sentidos e não da razão.
sentir a música, ouvir o silêncio, beijar a beleza. exaurir as formas sem se preocupar com os conteúdos.
hedonismo? às vezes pode se fazer salutar...
as volutas da fumaça do cigarro se enredavam nos cachos de cabelo cor de ouro esmaecido e subiam até aonde a corrente de ar a empurrava parcialmente de volta para dentro do ambiente. os três se olhavam e sorriam, observavam os desenhos feitos pelo fumo, sorriam da incerteza dos sentimentos...
displicente um beijo em cada um, negligente uma carícia no rosto e um sussurro quase musical, as coisas se resumiam à dor da partilha e ao gosto da felicidade pelo prazer.
os três compartilhavam do momento como se o tivessem esperado.
depois a despedida na noite fria.
a beleza consumida e guardada na memória.
a persistência levaria dias a ser guardada nas devidas prateleiras.
mas o quadro francês ainda jazia na parede da sala de estar... com suas cores orquestradas de modo a eternizar a comunhão.
a música, leve, única, dava à atmosfera um tom pastel de uma pintura francesa. os modos e os gestos se confundiam com a beleza dos olhos, molduras perfeita para um espírito inquieto e incessantemente questionador.
era madrugada alta quando, com exíguas roupas - uma cueca e uma camiseta de algodão - , se punha a fumar de pernas cruzadas: um lord... questionava os acontecimentos recentes, de forma preguiçosa e hesitante. questionar? não questionar?
"ahh só havia acontecido... deixemos assim..."
todos se olhavam displicentes mastigando as interrogações e partindo definitivamente para o exaurimento. não valia a pena justificar. não valia a pena perguntar: a noite era dos sentidos e não da razão.
sentir a música, ouvir o silêncio, beijar a beleza. exaurir as formas sem se preocupar com os conteúdos.
hedonismo? às vezes pode se fazer salutar...
as volutas da fumaça do cigarro se enredavam nos cachos de cabelo cor de ouro esmaecido e subiam até aonde a corrente de ar a empurrava parcialmente de volta para dentro do ambiente. os três se olhavam e sorriam, observavam os desenhos feitos pelo fumo, sorriam da incerteza dos sentimentos...
displicente um beijo em cada um, negligente uma carícia no rosto e um sussurro quase musical, as coisas se resumiam à dor da partilha e ao gosto da felicidade pelo prazer.
os três compartilhavam do momento como se o tivessem esperado.
depois a despedida na noite fria.
a beleza consumida e guardada na memória.
a persistência levaria dias a ser guardada nas devidas prateleiras.
mas o quadro francês ainda jazia na parede da sala de estar... com suas cores orquestradas de modo a eternizar a comunhão.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
à espera
por que teus olhos estão ausentes do meu setembro? queria-os para me abraçarem com a luz das manhãs ainda frias, em que necessito de cobertores e cheiros de cabelos desgrenhados.
andando pelos passeios, senti o café no ar e as pessoas rindo após o almoço. te procurei e o que encontrava eram olhares sem o mesmo calor dos teus olhos.
é o mistério das maduras manhãs de setembro nessa cidade levantada à beira da água. é o vento frio com o perfume da primavera que traz lembranças de peles agrestes, de tons pastéis... são eles que me deixam saudoso.
como tuas mãos, os galhos das árvores em brotação, com verdes tão claros e reluzentes, acariciam meus cabelos ao andar por entre elas... sinto o som da rua em redor e tudo parece uma doce música. penso em haver escutado tua voz ao longe pedindo que eu te espere, ali no passeio mirando a banca de revistas.
nessa época as pessoas não percebem, mas se tornam mais suscetíveis aos sentimentos agridoces, à doce solidão da espera...
não sou eu, é o mundo.
o cais é convidativo ao abandono do acaso. caminhar lentamente, sentindo o vento frio e o sol quente traz paz e paciência.
a espera (também) nos torna sábios.
andando pelos passeios, senti o café no ar e as pessoas rindo após o almoço. te procurei e o que encontrava eram olhares sem o mesmo calor dos teus olhos.
é o mistério das maduras manhãs de setembro nessa cidade levantada à beira da água. é o vento frio com o perfume da primavera que traz lembranças de peles agrestes, de tons pastéis... são eles que me deixam saudoso.
como tuas mãos, os galhos das árvores em brotação, com verdes tão claros e reluzentes, acariciam meus cabelos ao andar por entre elas... sinto o som da rua em redor e tudo parece uma doce música. penso em haver escutado tua voz ao longe pedindo que eu te espere, ali no passeio mirando a banca de revistas.
nessa época as pessoas não percebem, mas se tornam mais suscetíveis aos sentimentos agridoces, à doce solidão da espera...
não sou eu, é o mundo.
o cais é convidativo ao abandono do acaso. caminhar lentamente, sentindo o vento frio e o sol quente traz paz e paciência.
a espera (também) nos torna sábios.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
mar doce
Caminhando por uma rua estreita, apertada entre o casario antigo, com gerânios nas janelas, desembocou em um mar. A cintilação da água ofuscava a vista e o obrigou a fechar a mão em pala sobre os olhos para mirar o outro lado da baía. Barcos flutuavam com as velas cheias do vento sul, doce, com perfume de laranjas-do-céu. Havia muito decidiu viver nesses lugares velhos, carregados de histórias fantásticas, de marujos-heróis, de sereias aladas do canto suave e garras perigosas.
No entanto, a decisão não foi tomada bruscamente. Houve todo um acordo, ainda que tácito, mas houve, com a pessoa que queria infinitamente. Isso foi aos vinte e poucos anos... o tempo já o fizera esquecer exatamente quando foi, porém o motivo ainda era vívido na sua memória.
E como as histórias das sereias que habitavam aquelas baías, foi pego pela voz doce da pessoa amada. Lembra de cada carícia como o toque de um deus, cada beijo com um sabor inexplicável, olhares indescritíveis. Como falar de um ser praticamente sobre-humano? Ou melhor, do sentimento de estar em contato com o irreal?
Reputava tudo ao lugar. Aquela tepidez afrouxava a razão dos homens, fazia a lucidez se esfumar.
Um dia, à beira do mar, com um céu azul por pálio, avistou ao longe criaturas que estavam em uma ilhota próxima à costa. Eram sereias, provavelmente, tamanha perfeição. Vendo-o na margem, vieram até ele.
Era um grupo de sete: algumas mulheres e homens. Estavam todos nus e pareciam, ao olhá-lo, que nunca tinham visto um homem, ou antes, alguém com roupas, tamanha inocência aparentavam com a própria nudez.
Sentado em uma grande pedra, à beira do mar, o homem era examinado por aquelas criaturas. Um deles se interessou especialmente pelo "civilizado". E começou a tentar despí-lo. Houve uma leve carícia no rosto, e na barba escura, a mão se demorou... e, iniciando pela jaqueta, foi sendo despido. Um torpor permissionário percorreu a mente do homem, que deixava, apesar da vergonha, se despir.
Os outros olhavam, próximos. O homem levantou os braços para que o outro tirasse sua camiseta. Desaboou as calças, tirou as botas e a roupa de baixo. Estava nu, na praia, juntamente com o outro. E em um ímpeto animalesco a criatura o abraçou demoradamente, sussurrando coisas em seu ouvido.
Um calor profano tomou conta dele e sentia o rosto enrubescer. Sentia a carne tremer de prazer com o abraço. A pele quente e macia e as batidas do coração o faziam desejar o beijo do outro mais que a própria existência. Era um querer que sufocava, que o impelia a morder, a querer estar com o outro dentro de si, guardado, para levá-lo a todo lugar que fosse. Os cabelos, de uma cor escura de loiro, nasciam como ondas de um mar acima de uma efígie austera, porém sedutora.
Como fugir? Como correr? Como negar-se?
Depois do abraço, infinito no tempo, ao desvencilhar-se a criatura o pegou por uma mão e trouxe-o até a água. Levaram-no para a ilhota onde passou um tempo que não sabe medir a ouvir a voz do amado. Não era necessário mais que isso para que se instalasse a paz, para que desejasse a eternidade ali. Existiam somente dias, haviam somente perfumes delicados, não haviam defeitos, a grama era verde e macia o suficiente para o prazer de ambos.
Havia ficado para trás todas as cidades, todos os arranha-céus, todas as tvs, toda a trajetória errática que levou até o momento.
Ao acordar, certa vez, percebeu estar na praia. Não lembrava como tinha chegado ali. Estava com sua roupa gasta e pessoas o observavam ao redor. Levantou-se e viu o céu cinza. Onde estava? Era a ilha? Mirando a frente, o mar. Virou-se e viu uma cidade, a de antes de ser raptado pelo seu amor.
Não compreendia o que aconteceu. Pediu licença e sentou-se em uma grande pedra.
O que havia acontecido? A ilhota pairava em uma nuvem baixa, lá na frente. Estava frio e seu corpo sentia saudades. Virou e caminhou em direção á cidade, sob o olhar dos curiosos. Pensava no ocorrido e sentia saudades da sua nudez, da sua inocência, do corpo do outro e do calor emanado de ambos quando juntos.
Alcançada a primeira rua, virou-se e olhou o mar. Cinza e carrancudo, balançava fortemente os barcos de uma marina distante. Uma lágrima brotou e escorreu até o canto do lábio: não era salgada; era doce como as laranjas da ilha. Um sinal de que voltaria, bastava esperar.
No entanto, a decisão não foi tomada bruscamente. Houve todo um acordo, ainda que tácito, mas houve, com a pessoa que queria infinitamente. Isso foi aos vinte e poucos anos... o tempo já o fizera esquecer exatamente quando foi, porém o motivo ainda era vívido na sua memória.
E como as histórias das sereias que habitavam aquelas baías, foi pego pela voz doce da pessoa amada. Lembra de cada carícia como o toque de um deus, cada beijo com um sabor inexplicável, olhares indescritíveis. Como falar de um ser praticamente sobre-humano? Ou melhor, do sentimento de estar em contato com o irreal?
Reputava tudo ao lugar. Aquela tepidez afrouxava a razão dos homens, fazia a lucidez se esfumar.
Um dia, à beira do mar, com um céu azul por pálio, avistou ao longe criaturas que estavam em uma ilhota próxima à costa. Eram sereias, provavelmente, tamanha perfeição. Vendo-o na margem, vieram até ele.
Era um grupo de sete: algumas mulheres e homens. Estavam todos nus e pareciam, ao olhá-lo, que nunca tinham visto um homem, ou antes, alguém com roupas, tamanha inocência aparentavam com a própria nudez.
Sentado em uma grande pedra, à beira do mar, o homem era examinado por aquelas criaturas. Um deles se interessou especialmente pelo "civilizado". E começou a tentar despí-lo. Houve uma leve carícia no rosto, e na barba escura, a mão se demorou... e, iniciando pela jaqueta, foi sendo despido. Um torpor permissionário percorreu a mente do homem, que deixava, apesar da vergonha, se despir.
Os outros olhavam, próximos. O homem levantou os braços para que o outro tirasse sua camiseta. Desaboou as calças, tirou as botas e a roupa de baixo. Estava nu, na praia, juntamente com o outro. E em um ímpeto animalesco a criatura o abraçou demoradamente, sussurrando coisas em seu ouvido.
Um calor profano tomou conta dele e sentia o rosto enrubescer. Sentia a carne tremer de prazer com o abraço. A pele quente e macia e as batidas do coração o faziam desejar o beijo do outro mais que a própria existência. Era um querer que sufocava, que o impelia a morder, a querer estar com o outro dentro de si, guardado, para levá-lo a todo lugar que fosse. Os cabelos, de uma cor escura de loiro, nasciam como ondas de um mar acima de uma efígie austera, porém sedutora.
Como fugir? Como correr? Como negar-se?
Depois do abraço, infinito no tempo, ao desvencilhar-se a criatura o pegou por uma mão e trouxe-o até a água. Levaram-no para a ilhota onde passou um tempo que não sabe medir a ouvir a voz do amado. Não era necessário mais que isso para que se instalasse a paz, para que desejasse a eternidade ali. Existiam somente dias, haviam somente perfumes delicados, não haviam defeitos, a grama era verde e macia o suficiente para o prazer de ambos.
Havia ficado para trás todas as cidades, todos os arranha-céus, todas as tvs, toda a trajetória errática que levou até o momento.
Ao acordar, certa vez, percebeu estar na praia. Não lembrava como tinha chegado ali. Estava com sua roupa gasta e pessoas o observavam ao redor. Levantou-se e viu o céu cinza. Onde estava? Era a ilha? Mirando a frente, o mar. Virou-se e viu uma cidade, a de antes de ser raptado pelo seu amor.
Não compreendia o que aconteceu. Pediu licença e sentou-se em uma grande pedra.
O que havia acontecido? A ilhota pairava em uma nuvem baixa, lá na frente. Estava frio e seu corpo sentia saudades. Virou e caminhou em direção á cidade, sob o olhar dos curiosos. Pensava no ocorrido e sentia saudades da sua nudez, da sua inocência, do corpo do outro e do calor emanado de ambos quando juntos.
Alcançada a primeira rua, virou-se e olhou o mar. Cinza e carrancudo, balançava fortemente os barcos de uma marina distante. Uma lágrima brotou e escorreu até o canto do lábio: não era salgada; era doce como as laranjas da ilha. Um sinal de que voltaria, bastava esperar.
terça-feira, 26 de junho de 2012
esses soluços que nos engasgam e turvam a vista não poderiam fazer parte daquela cena.
havia todo um ensaio. havia todo um script que deveria ser seguido.
ou as horas longas que foram passadas a tramar o fim se reduziram a um sussurrado: "te amo"?
.
a festa era colorida e as pessoas bebiam. pareciam, em realidade, estar de porre coletivo.
não lembrava a hora que entrou na festa. lembra sim de beijar algumas pessoas, de sorrir para outras, mas não lembrava de nomes...
queria afogar as mágoas e dar o troco. cada vez que imaginava o que o outro estava fazendo procurava, mentalmente, afogar a imagem em um beijo desconhecido.
foi assim, de beijo em beijo, quase sóbrio que beijou alguém diferente, mas igual a quem queria esquecer.
"a sobriedade enlouquece".
e fez ver que fugir para aquele mundo noturno sem resolver o problema só causava mais estranheza. só causava mais desconforto.
dançando e bebendo planejava ser mau. planejava julgar e dizer verdade. imaginava-se apontando o dedo para o outro dizendo "você não me merece".
(não percebia que se o outro não o merecesse ele próprio não estaria fazendo aquela cena na festa...)
chegou em casa quando já havia sol. curado da bebedeira na própria festa, dormiu em um sofá no canto do bar. em casa, dormiu na cama, com a roupa da festa e o pé sujo do próprio vômito.
.
à tardinha marcaram um encontro. ninguém tinha mais nada a dizer a ninguém.
limpo e com o cabelo ajeitado, sentado em um banco e recuperado da ressaca, ele esperava pacientemente o ex-rolo. ao longe, fumando, vinha ele com óculos de grau e feição séria. sentou-se ao seu lado:
"já não é a primeira vez que você faz isso. ao menos dessa vez não transou com ninguém (que eu saiba)."
"mas..."
"uma puta tem mais dignidade, porque ao menos cobra o que você faz de graça."
silêncio.
"eu te amo."
"eu sei."
houve silêncio. e um soluço leve.
"não farei mais isso. foi a última vez."
um beijo selou a cena. e ele pensou "quão grande ator eu sou..." - era a própria a reencarnação de Nero!
o outro sorriu "ainda te tenho!"- sem haver distinção entre cinismo e verdade.
enfim, era uma relação temerosa, na qual os dois preferiam jogar ao invés de se amarem.
Ainda poriam fogo na Cidade e tocariam harpa!
havia todo um ensaio. havia todo um script que deveria ser seguido.
ou as horas longas que foram passadas a tramar o fim se reduziram a um sussurrado: "te amo"?
.
a festa era colorida e as pessoas bebiam. pareciam, em realidade, estar de porre coletivo.
não lembrava a hora que entrou na festa. lembra sim de beijar algumas pessoas, de sorrir para outras, mas não lembrava de nomes...
queria afogar as mágoas e dar o troco. cada vez que imaginava o que o outro estava fazendo procurava, mentalmente, afogar a imagem em um beijo desconhecido.
foi assim, de beijo em beijo, quase sóbrio que beijou alguém diferente, mas igual a quem queria esquecer.
"a sobriedade enlouquece".
e fez ver que fugir para aquele mundo noturno sem resolver o problema só causava mais estranheza. só causava mais desconforto.
dançando e bebendo planejava ser mau. planejava julgar e dizer verdade. imaginava-se apontando o dedo para o outro dizendo "você não me merece".
(não percebia que se o outro não o merecesse ele próprio não estaria fazendo aquela cena na festa...)
chegou em casa quando já havia sol. curado da bebedeira na própria festa, dormiu em um sofá no canto do bar. em casa, dormiu na cama, com a roupa da festa e o pé sujo do próprio vômito.
.
à tardinha marcaram um encontro. ninguém tinha mais nada a dizer a ninguém.
limpo e com o cabelo ajeitado, sentado em um banco e recuperado da ressaca, ele esperava pacientemente o ex-rolo. ao longe, fumando, vinha ele com óculos de grau e feição séria. sentou-se ao seu lado:
"já não é a primeira vez que você faz isso. ao menos dessa vez não transou com ninguém (que eu saiba)."
"mas..."
"uma puta tem mais dignidade, porque ao menos cobra o que você faz de graça."
silêncio.
"eu te amo."
"eu sei."
houve silêncio. e um soluço leve.
"não farei mais isso. foi a última vez."
um beijo selou a cena. e ele pensou "quão grande ator eu sou..." - era a própria a reencarnação de Nero!
o outro sorriu "ainda te tenho!"- sem haver distinção entre cinismo e verdade.
enfim, era uma relação temerosa, na qual os dois preferiam jogar ao invés de se amarem.
Ainda poriam fogo na Cidade e tocariam harpa!
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
paisagens carcomidas por lembranças de noite ébrias. assim me pareciam os dias antigos que se perdiam na confusão de pensamentos novos que surgiam como a tua vinda.
a cidade perdera o chão naquela época de paz armada. era uma pax romana esperando pra irromper em notas agudas de clarins furiosos, vorazes de sangue.
o verão ainda ventava pelos parques e lagos da cidade, que em obtusas ruelas estrangulava o coração machucado pelo silêncio, apertado pelos olhares reprovadores...
por fim, quando deflagrada a derradeira batalha as armas foram depostas (pelo cansaço) e a paz do amor pôde triunfar.
coroados de louros, sob o pálio da noite, dançamos sob os arcos de Constantino.
a cidade perdera o chão naquela época de paz armada. era uma pax romana esperando pra irromper em notas agudas de clarins furiosos, vorazes de sangue.
o verão ainda ventava pelos parques e lagos da cidade, que em obtusas ruelas estrangulava o coração machucado pelo silêncio, apertado pelos olhares reprovadores...
por fim, quando deflagrada a derradeira batalha as armas foram depostas (pelo cansaço) e a paz do amor pôde triunfar.
coroados de louros, sob o pálio da noite, dançamos sob os arcos de Constantino.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
coração-curinga
"abre os olhos. levanta e acende a luz que preciso dizer.
me promete que não vamos nos ver mais, que é só por essa noite... sinto muito fazer você acordar agora. me olha nos olhos, e diz que é só hoje.
foi porque senti frio, foi porque eu estava precisando de um abraço. acabei vindo parar em tua cama...
sim, desde que nos conhecemos minhas mãos indicaram que era você quem eu deveria ter encontrado antes. e nosso beijo selou a procura.
meu coração sempre foi um coração-curinga. sempre achei que ele ficaria bem com qualquer pessoa. mas tenho pensado e vejo que não é mais assim... ele só ficará bem contigo, mas preciso ir.
desculpa?
as razões são minhas e não têm lógica. têm só medo. e sabe, não é de você... é só de mim mesmo. volto pelos mesmos passos que vim, você sabe onde eles me levam e por isso vai concordar em eu sair a essa hora da madrugada.
desculpa."
o sol nascia e a névoa se dissipava na cidade. a descida pela escada antiga e a jaqueta na mão que há pouco jazia no encosto da cadeira, pendurada. o corrimão polido de anos, o frio do outono, o cheiro do café passado... descia e pensava.
a vida dava voltas e terminava sempre no mesmo ponto. a primeira noite sempre a última. no canto, tímida, a lágrima e soluço engolido. a porta e a rua. fria, fria sem o abraço, sem o sentimento, sem nada. sem dor.
só a liberdade. fria. solitária esperando por ele na multidão que saía dos prédios...
não era mais o mesmo.
me promete que não vamos nos ver mais, que é só por essa noite... sinto muito fazer você acordar agora. me olha nos olhos, e diz que é só hoje.
foi porque senti frio, foi porque eu estava precisando de um abraço. acabei vindo parar em tua cama...
sim, desde que nos conhecemos minhas mãos indicaram que era você quem eu deveria ter encontrado antes. e nosso beijo selou a procura.
meu coração sempre foi um coração-curinga. sempre achei que ele ficaria bem com qualquer pessoa. mas tenho pensado e vejo que não é mais assim... ele só ficará bem contigo, mas preciso ir.
desculpa?
as razões são minhas e não têm lógica. têm só medo. e sabe, não é de você... é só de mim mesmo. volto pelos mesmos passos que vim, você sabe onde eles me levam e por isso vai concordar em eu sair a essa hora da madrugada.
desculpa."
o sol nascia e a névoa se dissipava na cidade. a descida pela escada antiga e a jaqueta na mão que há pouco jazia no encosto da cadeira, pendurada. o corrimão polido de anos, o frio do outono, o cheiro do café passado... descia e pensava.
a vida dava voltas e terminava sempre no mesmo ponto. a primeira noite sempre a última. no canto, tímida, a lágrima e soluço engolido. a porta e a rua. fria, fria sem o abraço, sem o sentimento, sem nada. sem dor.
só a liberdade. fria. solitária esperando por ele na multidão que saía dos prédios...
não era mais o mesmo.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
outros
quando eu tinha os meus dedos entre os teus cabelos parecia que não havia mais nada com que eu me importar... quando estávamos juntos em alguma festa e nossos corpos deslizavam pela música, com volúpia e calor, nossas roupas grudadas em nossas peles, nada parecia importar.
o gosto do fumo da minha boca era o mesmo da tua e o suor de nossos rostos lembravam horas perdidas em meio a agitação noturna das paixões violentas. eu não lhe havia dito, mas haviam outros, embora você fosse o meu preferido. os outros sabiam da minha predileção, mas você não (nem dela e nem deles). e quando nos viam juntos percebiam o quanto éramos um para o outro...
mas uma noite, na agonia da madrugada, quando a música já havia nos cansado decidimos que cada um devia seguir para um lado oposto já que juntos não estávamos indo a lugar algum (acredito que cansou, como da música)...
você foi embora, sozinho.
eu chamei outro e continuei seguindo a minha direção.
o gosto do fumo da minha boca era o mesmo da tua e o suor de nossos rostos lembravam horas perdidas em meio a agitação noturna das paixões violentas. eu não lhe havia dito, mas haviam outros, embora você fosse o meu preferido. os outros sabiam da minha predileção, mas você não (nem dela e nem deles). e quando nos viam juntos percebiam o quanto éramos um para o outro...
mas uma noite, na agonia da madrugada, quando a música já havia nos cansado decidimos que cada um devia seguir para um lado oposto já que juntos não estávamos indo a lugar algum (acredito que cansou, como da música)...
você foi embora, sozinho.
eu chamei outro e continuei seguindo a minha direção.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Nômade
"a vida corria nos trilhos sujos do trem, e por se demorar neles foi atropelada. o tanto esperar acontecer acabou gastando as concordâncias e assentimentos. à evidência do crime, fugiu os olhos e mandou à merda qualquer sentimentalismo: era óbvio que mereciam beijos os incontáveis convites para os mesmos... emboscada? talvez. não mais que o erro de não dizer absolutamente nada sobre o que deveria ter sido."
...
e com essas palavras desconcertantes, ele havia se despedido de sua vida. havia mudado de telefone, apagado todas as formas de contato possível, como se tivesse sido evaporado, abduzido ou algo do gênero. não sabia se procurava ou se deixava estar. mas qual era o status da relação? 'separado por evento desconhecido', 'viúvo'? enfim...
só a lágrima caiu, sozinha, no canto do olho. a vida continuava e, como não sabia o que fazer, restava lembrar.
o cigarro na mão fazia volutas de fumaça e pendiam das pontas do cabelo encaracolado pequenas pérolas de sereno da noite.
o céu enorme e a estrela favorita dele estava no horizonte como quando se viram pela primeira vez: o único vestígio dele ali.
ainda era o mesmo, mas não queria, e todas as besteiras sentimentais faziam certo sentido. admitir que se sente não é fraqueza, é humanidade.
qual foi o motivo do sumiço?
nem roupas, nem livros, nem nada em casa. tudo simplesmente sumiu. ainda hoje estava tudo lá, e agora nem o cheiro restava.
a trajetória errática escolhida pelo outro devia ser respeitada e prende-lo em estreitas paredes era acabar com sua natureza. quem sabe reapareça assim como sumiu?
só que até lá, não se responsabilizaria por encontrar alguém menos nômade...
...
e com essas palavras desconcertantes, ele havia se despedido de sua vida. havia mudado de telefone, apagado todas as formas de contato possível, como se tivesse sido evaporado, abduzido ou algo do gênero. não sabia se procurava ou se deixava estar. mas qual era o status da relação? 'separado por evento desconhecido', 'viúvo'? enfim...
só a lágrima caiu, sozinha, no canto do olho. a vida continuava e, como não sabia o que fazer, restava lembrar.
o cigarro na mão fazia volutas de fumaça e pendiam das pontas do cabelo encaracolado pequenas pérolas de sereno da noite.
o céu enorme e a estrela favorita dele estava no horizonte como quando se viram pela primeira vez: o único vestígio dele ali.
ainda era o mesmo, mas não queria, e todas as besteiras sentimentais faziam certo sentido. admitir que se sente não é fraqueza, é humanidade.
qual foi o motivo do sumiço?
nem roupas, nem livros, nem nada em casa. tudo simplesmente sumiu. ainda hoje estava tudo lá, e agora nem o cheiro restava.
a trajetória errática escolhida pelo outro devia ser respeitada e prende-lo em estreitas paredes era acabar com sua natureza. quem sabe reapareça assim como sumiu?
só que até lá, não se responsabilizaria por encontrar alguém menos nômade...
domingo, 31 de outubro de 2010
O caos no trânsito
só havia fumaça na cidade naqueles dias quentes... o asfalto esquentava os pés e subia uma onda de calor do chão que fazia todos ficaram tontos, cansados e fedorentos (etc).
sem romantismos, sem idealizações: o capitalismo corria pelas avenidas.
sentados em bancos de paradas de ônibus sujas olhavam as pessoas para cartazes colados de uma Nova Igreja Qualquer que anunciavam o fim dos tempos (como se fosse novidade!) e comentavam sobre o 2012 e seus efeitos e outros lembravam que ainda não haviam pago o dízimo ao bispo e por isso cogitavam em ir para o inferno caso o fim realmente chegasse (como predito nos cartazes...) e outros nem se davam conta da existência daquelas coisas.
entre os últimos havia um grupo de dissidentes partidários que discutiam acaloradamente sobre as tendências da política na Bulgária e os reflexos na econômia do Egito. afirmavam piamente que se a ultra-direita assumisse naquele país seria um colapso para as suas relações com os países mulçumanos... por fim, tergiversavam sobre os salgadinhos que comeram na festa de aniversário de dois aninhos da filha do companheiro Zé ocorrida na noite anterior...
nesse ínterim, passa um carro-de-som-quase-trio-elétrico anunciando um evento cultural. em cima estavam pessoas (?) vestidas (ou travestidas?) no melhor estilo Felicia (The Adventures of Priscilla...). anunciava o carro um evento de cunho (ui) queer... enfim: música característica (voz também), roupa chamativa, causando horrores. resultado: toda a parada de ônibus literalmente parou: observavam... também nesse ínterim o semáforo fechou. e o carro-de-som-quase-trio-elétrico, para a felicidade de crentes em geral, ficou exatamente nas fuças dos últimos, separados desses apenas por um estreito corredor de coletivos urbanos. a rua não era muito larga, como típico daquela região da cidade. e de um andar de um prédio próximo que fica um pouco acima da parada de ônibus, que alastrava sua sombra até o prédio do outro lado da rua, voou um objeto em direção a uma das felícias, alegre em seu traje cereja metálico...
foi o estopim para o bafão. o público da parada, antes disperso entre cartazes do fim do mundo, os salgadinhos da festa e a política búlgaro-egípcia uniu-se contra o 'inimigo' comum. crentes falavam que realmente Jesus viria e levaria todos do carro, inclusive o motorista, para o inferno. os políticos gritavam que gays eram contra o Estado e os cinéfilos berravam 'veaaaados'. realmente, o motorista achava que estava em um inferno: com a cidade quente e uma turba berrando contra ele só poderia ter se aberto o sétimo selo do Apocalipse! e nesses segundos de tensão, arrancou o carro de modo que as felícias se desequilibraram: uma que estava entoando xingamentos na beirada caiu...
por alguns metros, do alto do carro ao chão, pareceu um pequeno e leve filhote de gralha azul, em seus trajes azuis-marinho (metálico, por óbvio) dando seu primeiro voo rasante ao sair do ninho. claro que ela já havia alçado voos bem mais altos (compreendem?).
caiu. caiu e ficou por instantes ali. jogada no asfalto quente. o público da calçada fez um coro e os xingamentos pararam. o semáforo abriu e o carro foi com suas irmãs gritanto desesperadamente para o motorista parar. no turbilhão de sons da cidade, ouvia-se as vozes agudas distanciando-se em abandono à felícia azul-marinho. pessoas da calçada acorreram e o tráfego foi parado por instantes (mais um pequenos caos dentro da cidade que era o caos em si). ela dolorida sentou-se em um banco da parada. não havia quebrado nada, pelo visto, e chorava um pouco. deram-lhe um dinheiro e aconselharam ir ao hospital mais próximo.
o ônibus veio em seguida, parou. as pessoas entraram e ela junto, desconsolada, subiu, pagou a passagem e sentou ('na janela').
apesar de não ter quebrado aparentemente nada, não custava ir ao hospital. ela particularmente adorava médicos (são sempre uns bofes de arrazar)...
sem romantismos, sem idealizações: o capitalismo corria pelas avenidas.
sentados em bancos de paradas de ônibus sujas olhavam as pessoas para cartazes colados de uma Nova Igreja Qualquer que anunciavam o fim dos tempos (como se fosse novidade!) e comentavam sobre o 2012 e seus efeitos e outros lembravam que ainda não haviam pago o dízimo ao bispo e por isso cogitavam em ir para o inferno caso o fim realmente chegasse (como predito nos cartazes...) e outros nem se davam conta da existência daquelas coisas.
entre os últimos havia um grupo de dissidentes partidários que discutiam acaloradamente sobre as tendências da política na Bulgária e os reflexos na econômia do Egito. afirmavam piamente que se a ultra-direita assumisse naquele país seria um colapso para as suas relações com os países mulçumanos... por fim, tergiversavam sobre os salgadinhos que comeram na festa de aniversário de dois aninhos da filha do companheiro Zé ocorrida na noite anterior...
nesse ínterim, passa um carro-de-som-quase-trio-elétrico anunciando um evento cultural. em cima estavam pessoas (?) vestidas (ou travestidas?) no melhor estilo Felicia (The Adventures of Priscilla...). anunciava o carro um evento de cunho (ui) queer... enfim: música característica (voz também), roupa chamativa, causando horrores. resultado: toda a parada de ônibus literalmente parou: observavam... também nesse ínterim o semáforo fechou. e o carro-de-som-quase-trio-elétrico, para a felicidade de crentes em geral, ficou exatamente nas fuças dos últimos, separados desses apenas por um estreito corredor de coletivos urbanos. a rua não era muito larga, como típico daquela região da cidade. e de um andar de um prédio próximo que fica um pouco acima da parada de ônibus, que alastrava sua sombra até o prédio do outro lado da rua, voou um objeto em direção a uma das felícias, alegre em seu traje cereja metálico...
foi o estopim para o bafão. o público da parada, antes disperso entre cartazes do fim do mundo, os salgadinhos da festa e a política búlgaro-egípcia uniu-se contra o 'inimigo' comum. crentes falavam que realmente Jesus viria e levaria todos do carro, inclusive o motorista, para o inferno. os políticos gritavam que gays eram contra o Estado e os cinéfilos berravam 'veaaaados'. realmente, o motorista achava que estava em um inferno: com a cidade quente e uma turba berrando contra ele só poderia ter se aberto o sétimo selo do Apocalipse! e nesses segundos de tensão, arrancou o carro de modo que as felícias se desequilibraram: uma que estava entoando xingamentos na beirada caiu...
por alguns metros, do alto do carro ao chão, pareceu um pequeno e leve filhote de gralha azul, em seus trajes azuis-marinho (metálico, por óbvio) dando seu primeiro voo rasante ao sair do ninho. claro que ela já havia alçado voos bem mais altos (compreendem?).
caiu. caiu e ficou por instantes ali. jogada no asfalto quente. o público da calçada fez um coro e os xingamentos pararam. o semáforo abriu e o carro foi com suas irmãs gritanto desesperadamente para o motorista parar. no turbilhão de sons da cidade, ouvia-se as vozes agudas distanciando-se em abandono à felícia azul-marinho. pessoas da calçada acorreram e o tráfego foi parado por instantes (mais um pequenos caos dentro da cidade que era o caos em si). ela dolorida sentou-se em um banco da parada. não havia quebrado nada, pelo visto, e chorava um pouco. deram-lhe um dinheiro e aconselharam ir ao hospital mais próximo.
o ônibus veio em seguida, parou. as pessoas entraram e ela junto, desconsolada, subiu, pagou a passagem e sentou ('na janela').
apesar de não ter quebrado aparentemente nada, não custava ir ao hospital. ela particularmente adorava médicos (são sempre uns bofes de arrazar)...
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