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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

serra do esquecimento

todas as disformias do espírito se ajuntavam na tardinha... como um ciciar de cigarras que começava de leve, baixinho, e ia ficando estridente, estridulando pensamentos agudos, desesperos sem-fim, revoluções...
e numa tarde quente de verão, abafada e cheia de vapores, notou o sol caindo por entre nuvens finas, que se manchavam de cor de ouro: lembra de ter subido daquela direção, inquieto, a procura das riquezas, das pedras que se alojavam no seio daquelas outras duras e empinadas...
fazia tempo e não havia encontrado nada, nem riqueza, nem pedras raras, nem ouro... mas ficara por ali, naquela cidade. 
tinha encontrado, se é que podia dizer dessa forma, alguém com que compartilhar a sua pobreza, ou antes, o seu desencontro... não sabia bem como aconteceu: se achou ou foi achado; apenas que aconteceu num sem fim de tempo, que todo somado foi dar no dia de hoje (quando já ama).
uma noite quente, logo quando veio de uma planície em que procurava raridades, encontrou uma de outro tipo que não esperava. em um posto velho de beira de estrada... foi só a olhar para esquecer todo o resto da vida de antes... mas veio junto o medo, galopando num sorriso, montado no vento fino e quente que soprava...
"mais?" sim, mais "água". a noite quente levantava os desejos, aquecia a carne. mas ela tinha um ar de anjo... mas, foi mais um "mais?" e ela já era imaginada como um pequeno diabinho, que sorrindo, brincava com o sentimento do caboclo. 
"o que fazer?"
...
olhava e sorria, como saudando os horizontes que tinham o empurrado até ali... sentiu cócegas na cintura descoberta: era uma mão leve e anunciava um abraço firme e um beijo na nuca...
era difícil imaginar a vida sem essa riqueza: todas as outras ficaram desimportantes. a alma só pediu o beijo, só pediu entendimento...
coçando a barba do queixo, virou-se "vamos pro poente? às vezes tenho saudade de ver o que era antes..."

terça-feira, 12 de março de 2013

mudez

Depois de uma pequena digressão que iniciou com a causa do Big Bang, passava pela extinção dos dinossauros e chegava às tendências obscurantistas das igrejas cristãs neopentecostais, ele se viu obrigado a fumar.
Fumar, fumar... Não havia nada melhor para o momento. Aliás, não havia outra coisa a se fazer. Deitados na cama, nus, o que mais existia entre ambos eram assuntos assexuados.
De pé, a beira da janela entre-aberta, acendia um cigarro. Resmungava sobre o tempo nublado e levemente chuvoso que há dias ocupava o seu humor. Ouvia que ela, na cama, ressonava levemente, dormindo entre um piscar de olhos e outro.
"Penso que essa chuva não vá parar tão cedo..."
"É sempre assim nessa época. Não é novidade..."
A falta de assunto pesava toneladas e criava um clima estranho, como se os dois não se conhecessem mais tão bem quanto antes. Entrava pela janela um leve vento frio, que raspava o seu flanco e fluía contra ela, na cama. Um arrepio gostoso descia da região dorsal até atrás do joelho esquerdo, fazendo os pelos se eriçarem prazerosamente.
Essa falta de assunto causava-lhe agonia e parecia ser preenchida com olhares avaliadores, profundos, que tentavam sondar o seu íntimo. Não se sentia à vontade.
"Não acha estranho isso tudo?"
"Isso o que? Nossa mudez?"
"Sim. Essa mudez. Não éramos assim. Conversávamos mais. Sei lá."
A explicitação do que o incomodava era uma tentativa de se sentir menos deslocado no ambiente. Pensava em pôr a roupa e ir embora. Descer para o café no térreo e beber litros de capuccino.
"Talvez tenhamos intimidade suficiente para nos permitir não falar mais nada..."
Essa frase, solta depois de uma pausa longa soou como um tiro. É como se fosse tão, mas tão evidente que nunca percebeu jazer sob seu nariz.
Verdade.
Eram tão íntimos que não precisavam mais de palavras. Elas já eram inúteis para mensurar o que possuíam.
E então, dali em diante, ouvia-se apenas a chuva.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Antiguidades

Ofuscavam os olhos uma miríade de pequenos sóis e uma claridade, cegante, dava bom dia ao homem aturdido, que acordava em meio a uma pedregosa ravina. Acostumando-se à luz, os olhos já enxergavam as pedras que se erguiam altas em redor, equilibrando-se uma sobre a outra como os malabares dos circenses.
Procurava, ainda deitado na ravina, uma ideia de onde poderia estar. Não encontrava na mente lembrança coerente do que havia ocorrido depois da tempestado no mar. Saíram de Otranto e, ele ao menos, tinha como destino final Mistra. Visitaria o Déspota de Morea, levando novas acerca do tratado secreto com os patrícios locais.
Sentando-se, viu que se aproximavam pessoas, três, que vinham cabisbaixas e sem nada nas mãos. Pensou na possibilidade de ser sobreviventes do mesmo naufrágio que ele, o que descartou logo em seguida, visto ter percebido serem apenas pastores da região. Traziam cajados e trajavam roupas simples e ao serem indagados responderam em um grego que soava estranho ao ouvido do náufrago. Definitivamente não era o romaico da corte bizantina...
Tentavam explicar, gritando, que ali ainda estava em terra do basileu. Mas onde? Provavel que fosse no Meio-dia e não no Épiro... Mas onde? Precisava chegar a tempo com os pergaminhos! Os pergaminhos! Procurando em sua roupa rica e esfarrapada, apalpava-se lembrando da importância dos documentos. E agora perguntava sobre o mar, em que direção ficava? Como foi parar na ravina? E os pastores indicavam com os cajados a direção do oceano.
Pôs-se de pé rapidamente e, estropiado e dolorido, saiu correndo o mais depressa que podia. Correu até cansar. Começou a caminhar e assim permaneceu por mais um tempo, seguindo a ravina que parecia uma chaga aberta no chão, um talho de uma adaga, reta até desembocar sabe-se lá aonde. Ladeavam-na apenas rochas equilibradas toscamente sobre outras e paredões que eram moradias de aves de rapina. Quando acordou o sol estava no zênite; agora faltava pouco para o fim do dia.
Avistou o mar assim que a rovina fez uma leve curva para o poente. Azul, brilhava com os últimos estertores do sol. Ali, no fim da ravina encontrou os corpos dos companheiros e, um pouco para dentro do mar, presa em pedras pontiagudas que um dia habitaram na continuidade da ravina, a galé em frangalhos. As velas rasgadas, os remos partidos, e uma grande pedra enfiada como uma grande presa de javali a estibordo.
Prostrou-se e chorou. O que fazer? Por onde começar a procurar as cartas remanescentes? Aliás, como chegar ao destino e contar tamanha desgraça ao messer Paleólogo?
Atirou-se na água, que dava pela cintura e ávido por uma solução, dirigia-se para a galé que jazia nos esporões da rovina. As últimas luzes do dia deixavam o quadro mais desesperador, emprestavam um ar mais trágico.
Em meio a pensamentos confusos ouviu gritos. Ou melhor, saudações, na sua língua materna. Parou onde estava como que para ouvir melhor. Sim, eram para ele e eram em sua língua. Pareciam vir do céu, não do navio. Soavam ao escurecer e soavam como dentro de uma igreja, como um antigo hino ao Pantocrator.
Chorava copiosamente, parado em meio ao mar. As mãos postas sobre os olhos. Era Miguel que o veio salvar. Era Miguel, o protetor de sua casa!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

I

o café esfriava na mesa e a chuva caía nos telhados da rua. entre os lábios apertados um cigarro perdido e nas mãos livros enormes e livretos, finos, de conteúdos duvidosos. passar a tarde remoendo memórias de amores póstumos tinha se tornado predileção nos últimos tempos...
flagrava-se a pensar de forma nostálgica de pessoas com as quais podia ter tido um relacionamento sério e, quiçá, existente até os dias atuais.
no entanto, logo previa o fim pois que sabia não ter paciência para pessoas; não possuía essa fina virtude nem mesmo para consigo! imagine quanto para com terceiros!
fumava e bebia o café, que tinha o gosto acentuado pela fumo. os olhinhos levemente puxados, abertos vivazmente, de uma cor marrom-clara, como que decifrava pela primeira vez parágrafos gastos da literatura mundial que jaziam guardados em caixas amontoadas pelos cantos, tal qual múmias em sarcófagos nos depósitos dos museus mundo afora... quantas? dez? uma dúzia? vinte? uma centena?
tirou um Satiricon de uma caixa, um Asno de Ouro de outra, um volume de Júlio Verne de uma terceira, Orwell de outra e assim por diante. imaginava a variedade de mundos que se escondiam naquelas páginas ocultadas em tantas caixas. quem deixara aquelas relíquias para trás, naquele apartamento recém alugado?
bem... não fazia ideia, mas era interessante explorar por dias um tesouro que não lhe pertencia...
perdido em pensamentos assim, de sobressalto, deu-se conta que batiam à porta ferozmente.
"será que era o proprietário das pequenas múmias?"
de qualquer sorte estava decidido a não as devolver sem antes pedir algumas, ao menos emprestadas. levantou-se vagarosamente, pondo um volume de filosofia antiga sobre uma coluna de livros de contos vampirescos e dirigiu-se à porta...
espiou pelo olho mágico: alguém de chapéu e com a cabeça abaixada, de modo que não conseguia ver o rosto, postava-se a sua porta. - "quem era?"


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

ceia

pairavam em alguma nuvem os castelos erguidos durante os tempos de adolescência - que estavam se acabando fazia uns vários anos... e pairavam nas nuvens do cigarro de canela que fumava à beira da janela, com as luzes da cidade ao fundo.
a música, leve, única, dava à atmosfera um tom pastel de uma pintura francesa. os modos e os gestos se confundiam com a beleza dos olhos, molduras perfeita para um espírito inquieto e incessantemente questionador.
era madrugada alta quando, com exíguas roupas - uma cueca e uma camiseta de algodão - , se punha a fumar de pernas cruzadas: um lord... questionava os acontecimentos recentes, de forma preguiçosa e hesitante. questionar? não questionar?
"ahh só havia acontecido... deixemos assim..."
todos se olhavam displicentes mastigando as interrogações e partindo definitivamente para o exaurimento. não valia a pena justificar. não valia a pena perguntar: a noite era dos sentidos e não da razão.
sentir a música, ouvir o silêncio, beijar a beleza. exaurir as formas sem se preocupar com os conteúdos.
hedonismo? às vezes pode se fazer salutar...
as volutas da fumaça do cigarro se enredavam nos cachos de cabelo cor de ouro esmaecido e subiam até aonde a corrente de ar a empurrava parcialmente de volta para dentro do ambiente. os três se olhavam e sorriam, observavam os desenhos feitos pelo fumo, sorriam da incerteza dos sentimentos...
displicente um beijo em cada um, negligente uma carícia no rosto e um sussurro quase musical, as coisas se resumiam à dor da partilha e ao gosto da felicidade pelo prazer.
os três compartilhavam do momento como se o tivessem esperado.
depois a despedida na noite fria.
a beleza consumida e guardada na memória.
a persistência levaria dias a ser guardada nas devidas prateleiras.
mas o quadro francês ainda jazia na parede da sala de estar... com suas cores orquestradas de modo a eternizar a comunhão.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

mar doce

Caminhando por uma rua estreita, apertada entre o casario antigo, com gerânios nas janelas, desembocou em um mar. A cintilação da água ofuscava a vista e o obrigou a fechar a mão em pala sobre os olhos para mirar o outro lado da baía. Barcos flutuavam com as velas cheias do vento sul, doce, com perfume de laranjas-do-céu. Havia muito decidiu viver nesses lugares velhos, carregados de histórias fantásticas, de marujos-heróis, de sereias aladas do canto suave e garras perigosas.
No entanto, a decisão não foi tomada bruscamente. Houve todo um acordo, ainda que tácito, mas houve, com a pessoa que queria infinitamente. Isso foi aos vinte e poucos anos... o tempo já o fizera esquecer exatamente quando foi, porém o motivo ainda era vívido na sua memória.
E como as histórias das sereias que habitavam aquelas baías, foi pego pela voz doce da pessoa amada. Lembra de cada carícia como o toque de um deus, cada beijo com um sabor inexplicável, olhares indescritíveis. Como falar de um ser praticamente sobre-humano? Ou melhor, do sentimento de estar em contato com o irreal?
Reputava tudo ao lugar. Aquela tepidez afrouxava a razão dos homens, fazia a lucidez se esfumar.
Um dia, à beira do mar, com um céu azul por pálio, avistou ao longe criaturas que estavam em uma ilhota próxima à costa. Eram sereias, provavelmente, tamanha perfeição. Vendo-o na margem, vieram até ele.
Era um grupo de sete: algumas mulheres e homens. Estavam todos nus e pareciam, ao olhá-lo, que nunca tinham visto um homem, ou antes, alguém com roupas, tamanha inocência aparentavam com a própria nudez.
Sentado em uma grande pedra, à beira do mar, o homem era examinado por aquelas criaturas. Um deles se interessou especialmente pelo "civilizado". E começou a tentar despí-lo. Houve uma leve carícia no rosto, e na barba escura, a mão se demorou... e, iniciando pela jaqueta, foi sendo despido. Um torpor permissionário percorreu a mente do homem, que deixava, apesar da vergonha, se despir.
Os outros olhavam, próximos. O homem levantou os braços para que o outro tirasse sua camiseta. Desaboou as calças, tirou as botas e a roupa de baixo. Estava nu, na praia, juntamente com o outro. E em um ímpeto animalesco a criatura o abraçou demoradamente, sussurrando coisas em seu ouvido.
Um calor profano tomou conta dele e sentia o rosto enrubescer. Sentia a carne tremer de prazer com o abraço. A pele quente e macia e as batidas do coração o faziam desejar o beijo do outro mais que a própria existência. Era um querer que sufocava, que o impelia a morder, a querer estar com o outro dentro de si, guardado, para levá-lo a todo lugar que fosse. Os cabelos, de uma cor escura de loiro, nasciam como ondas de um mar acima de uma efígie austera, porém sedutora.
Como fugir? Como correr? Como negar-se?
Depois do abraço, infinito no tempo, ao desvencilhar-se a criatura o pegou por uma mão e trouxe-o até a água. Levaram-no para a ilhota onde passou um tempo que não sabe medir a ouvir a voz do amado. Não era necessário mais que isso para que se instalasse a paz, para que desejasse a eternidade ali. Existiam somente dias, haviam somente perfumes delicados, não haviam defeitos, a grama era verde e macia o suficiente para o prazer de ambos.
Havia ficado para trás todas as cidades, todos os arranha-céus, todas as tvs, toda  a trajetória errática que levou até o momento.
Ao acordar, certa vez, percebeu estar na praia. Não lembrava como tinha chegado ali. Estava com sua roupa gasta e pessoas o observavam ao redor. Levantou-se e viu o céu cinza. Onde estava? Era a ilha? Mirando a frente, o mar. Virou-se e viu uma cidade, a de antes de ser raptado pelo seu amor.
Não compreendia o que aconteceu. Pediu licença e sentou-se em uma grande pedra.
O que havia acontecido? A ilhota pairava em uma nuvem baixa, lá na frente. Estava frio e seu corpo sentia saudades. Virou e caminhou em direção á cidade, sob o olhar dos curiosos. Pensava no ocorrido e sentia saudades da sua nudez, da sua inocência, do corpo do outro e do calor emanado de ambos quando juntos.
Alcançada a primeira rua, virou-se e olhou o mar. Cinza e carrancudo, balançava fortemente os barcos de uma marina distante. Uma lágrima brotou e escorreu até o canto do lábio: não era salgada; era doce como as laranjas da ilha. Um sinal de que voltaria, bastava esperar.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

reinos feéricos

aquele dia parecia vindo de outros tempos. a umidade fazia gotas caírem das folhas das árvores e nos cabelos das pessoas se alojavam pequenos cristais cintilantes... a bruma tomava conta das ruas estreitas naquele amanhecer e o horizonte das vielas se perdia nas névoas, misteriosas, desconhecidas.
cada passo era em direção ao desconhecido. pois por mais que soubesse o que havia depois da esquina, gostava de imaginar que poderia topar com algum ser mágico vindo de um país distante, de um reino feérico...
foi imaginando essas fábulas que avistou, por acaso, uma casa com balcões sobre o passeio. uma casa antiga, que parecia nunca ter visto antes. era uma contrução com um quê itálico, com mansardas, ampla e com um pé direito muito alto. com a porta principal de duas folhas, abrindo diretamente sobre o passeio, com duas aldravas que pareciam ser leoninas.
ficou por instantes admirando do lado oposto da rua aquela construção. percebia luzes em uma das portas de uma das sacadas e movimentos em uma cortina, que parecia feita de um tecido tênue e alvo.
enquanto mirava mais fixamente aquela abertura pintada de um verde antigo as folhas da porta antiga abriram-se. e nela surgiu, sim, um ser feérico. era de um porte tão elegante, um talhe tão soberbo, e de cabelos luzidios: deveria descender de uma estirpe tão antiga quando aquela contrução.
ficou tão encantado, como por uma magia. a visão era de tal beleza que gostaria de guardar aqueles segundos em algum lugar para ter acesso sempre que quisesse. 
como um ser selvagem, de beleza por si própria ignorada, a aparição apercebeu-se admirada, ou ao menos observada, e olhou fixamente nos olhos do estranho, na rua. levemente iniciou-se o esboço de um sorriso. e com a mão direita, alinhou alguns cachos escuros que talvez lhe incomodassem... as cortinas balançavam atrás, em direção ao interior da casa, deixando a névoa entrar. de tal modo o olhar e o sorriso o haviam prendido à aparição que se sentia hipnotizado.
quando aquele ser feérico aproximou-se do parapeito, percebeu que vestia um traje escuro, calças e um casaco que batia um pouco acima dos joelhos, com botões prateados, fechado até acima do peito, e parecia vestir uma gola branca de tecido franzido que saía discretamente ao redor do pescoço.
sem dúvida era um ser de outro mundo. o movimento de pedestres e carruagens na rua havia diminuído tanto que se poderia dizer que o local estava deserto.
a cada movimento avante do homem na rua, em direção ao balcão, aquela criatura surpreendente, dava um passo atrás, refugiando-se no seu mundo misterioso, guardado por aquelas portas e paredes ancestrais. até que, a meio caminho da casa, o ser fechou a porta e observou, arredando uma das cortinas, o hipnotizado, que ainda caminhava firmemente em direção ao seu balcão.
a luz do dia ficou mais intensa e as brumas começaram a se dissipar. a aparição sumiu da visão do homem.
quem seria aquele? que história teria? como nunca percebido essa residência, que agora era tão marcante na paisagem daquela rua?
o sol começou a brilhar forte e ele não conseguia contar quantos minutos ficou admirando aquele mundo misterioso que habitava no corpo de uma pessoa.
a casa, agora, iluminada pelo dia, não apresentava nada de muito incomum. era uma construção normal, sem muitos detalhes, antiga e com pintura um pouco descascada em alguns pontos. em realidade parecia descuidada. será que a magia foi culpa da aparição? da névoa? do amanhecer?
a alvorada guardava segredos que imaginava que só a noite poderia portar.
desde então busca esses seres feéricos, perfeitos. sabia, então, que não habitavam mais somente as florestas de pinheiros intocadas, campos virgens ou o reino da Arcádia.
habitavam sobretudo a sua mente e a cidade mágica em que vivia.




segunda-feira, 18 de abril de 2011

coração-curinga

"abre os olhos. levanta e acende a luz que preciso dizer.
me promete que não vamos nos ver mais, que é só por essa noite... sinto muito fazer você acordar agora. me olha nos olhos, e diz que é só hoje.
foi porque senti frio, foi porque eu estava precisando de um abraço. acabei vindo parar em tua cama...
sim, desde que nos conhecemos minhas mãos indicaram que era você quem eu deveria ter encontrado antes. e nosso beijo selou a procura.
meu coração sempre foi um coração-curinga. sempre achei que ele ficaria bem com qualquer pessoa. mas tenho pensado e vejo que não é mais assim... ele só ficará bem contigo, mas preciso ir.
desculpa?
as razões são minhas e não têm lógica. têm só medo. e sabe, não é de você... é só de mim mesmo. volto pelos mesmos passos que vim, você sabe onde eles me levam e por isso vai concordar em eu sair a essa hora da madrugada.
desculpa."

o sol nascia e a névoa se dissipava na cidade. a descida pela escada antiga e a jaqueta na mão que há pouco jazia no encosto da cadeira, pendurada. o corrimão polido de anos, o frio do outono, o cheiro do café passado... descia e pensava.
a vida dava voltas e terminava sempre no mesmo ponto. a primeira noite sempre a última. no canto, tímida, a lágrima e soluço engolido. a porta e a rua. fria, fria sem o abraço, sem o sentimento, sem nada. sem dor.
só a liberdade. fria. solitária esperando por ele na multidão que saía dos prédios...
não era mais o mesmo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

repristinação - texto antigo I

anunciação

era um sonho dentro de outro. havia algo de profético e de insano, afinal ambos se confundem no mais das vezes. da terra árida brotavam galhos contorcidos de uma árvore desconhecida e o céu era profundamente azul. cheirava o ar, suspenso, quente, a pó. como se tudo houvesse iniciado naquele instante e dos montes próximos descido pela própria mão de algum Deus o Homem que era.
dos dentes nascidos dos seixos e das mãos nascidas do firmamento, pelos poros fartos de suor gritavam, em êxtase, os sinais da revelação. Homem que desde a eternidade se estendia ao grão mais minúsculo de pó!
descendo da montanha se fez a si, sem ter se procurado. a serpente o reconheceu, o chacal o saudou, a águia o nomeou...
e em mil arraiais perdidos perambulando solitário, abrindo sendas, tinha o poder da transmutação aprendido com os alquimistas que não mais existiam e que viviam dentro de si. e à imitação do cacto só sabia ferir os que chegavam...
e no caminho encontrava sua casa de taipa e sapê, leito raso com travesseiro de palha: o dormir ali já produzia sonhos emaranhados como os cabelos de quem havia amado uma vez... encontrar-se divagando em um dia, à noite, solto em um mundo sem cercas e tapumes!
mais adiante, sentou-se à porta do fundo da tapera. mirava o sol, com a mão em concha sobre os olhos. o sol a sua frente serpenteava, e subitamente começou a tomar formas humanas. aos poucos vinha um corpo alado descendo suavemente em sua direção e o cheiro de pó se dissipava substituído pelo de mirra. as árvores retorcidas contorciam-se em uma dança elegante e lenta.
o anunciante portava espada em uma mão e uma trombeta em outra e mirava nos olhos do Homem. dizia que era a primeira visita, a primeira e haveriam mais duas: os cabelos ardentes esvoaçavam e não se sabia se havia sexo. a voz soava na mente e retrocedendo voltou ao sol, sempre mirando nos olhos...
sumindo o anunciante, se foi o Homem pelos montes caminhando e em uma noite se lembrou. carregava um trombeta que fez soar avisando ao povoado que chegava.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Nômade

"a vida corria nos trilhos sujos do trem, e por se demorar neles foi atropelada. o tanto esperar acontecer acabou gastando as concordâncias e assentimentos. à evidência do crime, fugiu os olhos e mandou à merda qualquer sentimentalismo: era óbvio que mereciam beijos os incontáveis convites para os mesmos... emboscada? talvez. não mais que o erro de não dizer absolutamente nada sobre o que deveria ter sido."
...
e com essas palavras desconcertantes, ele havia se despedido de sua vida. havia mudado de telefone, apagado todas as formas de contato possível, como se tivesse sido evaporado, abduzido ou algo do gênero. não sabia se procurava ou se deixava estar. mas qual era o status da relação? 'separado por evento desconhecido', 'viúvo'? enfim...
só a lágrima caiu, sozinha, no canto do olho. a vida continuava e, como não sabia o que fazer, restava lembrar.
o cigarro na mão fazia volutas de fumaça e pendiam das pontas do cabelo encaracolado pequenas pérolas de sereno da noite.
o céu enorme e a estrela favorita dele estava no horizonte como quando se viram pela primeira vez: o único vestígio dele ali.
ainda era o mesmo, mas não queria, e todas as besteiras sentimentais faziam certo sentido. admitir que se sente não é fraqueza, é humanidade.
qual foi o motivo do sumiço?
nem roupas, nem livros, nem nada em casa. tudo simplesmente sumiu. ainda hoje estava tudo lá, e agora nem o cheiro restava.
a trajetória errática escolhida pelo outro devia ser respeitada e prende-lo em estreitas paredes era acabar com sua natureza. quem sabe reapareça assim como sumiu?
só que até lá, não se responsabilizaria por encontrar alguém menos nômade...

domingo, 31 de outubro de 2010

O caos no trânsito

só havia fumaça na cidade naqueles dias quentes... o asfalto esquentava os pés e subia uma onda de calor do chão que fazia todos ficaram tontos, cansados e fedorentos (etc).
sem romantismos, sem idealizações: o capitalismo corria pelas avenidas.
sentados em bancos de paradas de ônibus sujas olhavam as pessoas para cartazes colados de uma Nova Igreja Qualquer que anunciavam o fim dos tempos (como se fosse novidade!) e comentavam sobre o 2012 e seus efeitos e outros lembravam que ainda não haviam pago o dízimo ao bispo e por isso cogitavam em ir para o inferno caso o fim realmente chegasse (como predito nos cartazes...) e outros nem se davam conta da existência daquelas coisas.
entre os últimos havia um grupo de dissidentes partidários que discutiam acaloradamente sobre as tendências da política na Bulgária e os reflexos na econômia do Egito. afirmavam piamente que se a ultra-direita assumisse naquele país seria um colapso para as suas relações com os países mulçumanos... por fim, tergiversavam sobre os salgadinhos que comeram na festa de aniversário de dois aninhos da filha do companheiro Zé ocorrida na noite anterior...
nesse ínterim, passa um carro-de-som-quase-trio-elétrico anunciando um evento cultural. em cima estavam pessoas (?) vestidas (ou travestidas?) no melhor estilo Felicia (The Adventures of Priscilla...). anunciava o carro um evento de cunho (ui) queer... enfim: música característica (voz também), roupa chamativa, causando horrores. resultado: toda a parada de ônibus literalmente parou: observavam... também nesse ínterim o semáforo fechou. e o carro-de-som-quase-trio-elétrico, para a felicidade de crentes em geral, ficou exatamente nas fuças dos últimos, separados desses apenas por um estreito corredor de coletivos urbanos. a rua não era muito larga, como típico daquela região da cidade. e de um andar de um prédio próximo que fica um pouco acima da parada de ônibus, que alastrava sua sombra até o prédio do outro lado da rua, voou um objeto em direção a uma das felícias, alegre em seu traje cereja metálico...
foi o estopim para o bafão. o público da parada, antes disperso entre cartazes do fim do mundo, os salgadinhos da festa e a política búlgaro-egípcia uniu-se contra o 'inimigo' comum. crentes falavam que realmente Jesus viria e levaria todos do carro, inclusive o motorista, para o inferno. os políticos gritavam que gays eram contra o Estado e os cinéfilos berravam 'veaaaados'. realmente, o motorista achava que estava em um inferno: com a cidade quente e uma turba berrando contra ele só poderia ter se aberto o sétimo selo do Apocalipse! e nesses segundos de tensão, arrancou o carro de modo que as felícias se desequilibraram: uma que estava entoando xingamentos na beirada caiu...
por alguns metros, do alto do carro ao chão, pareceu um pequeno e leve filhote de gralha azul, em seus trajes azuis-marinho (metálico, por óbvio) dando seu primeiro voo rasante ao sair do ninho. claro que ela já havia alçado voos bem mais altos (compreendem?).
caiu. caiu e ficou por instantes ali. jogada no asfalto quente. o público da calçada fez um coro e os xingamentos pararam. o semáforo abriu e o carro foi com suas irmãs gritanto desesperadamente para o motorista parar. no turbilhão de sons da cidade, ouvia-se as vozes agudas distanciando-se em abandono à felícia azul-marinho. pessoas da calçada acorreram e o tráfego foi parado por instantes (mais um pequenos caos dentro da cidade que era o caos em si). ela dolorida sentou-se em um banco da parada. não havia quebrado nada, pelo visto, e chorava um pouco. deram-lhe um dinheiro e aconselharam ir ao hospital mais próximo.
o ônibus veio em seguida, parou. as pessoas entraram e ela junto, desconsolada, subiu, pagou a passagem e sentou ('na janela').
apesar de não ter quebrado aparentemente nada, não custava ir ao hospital. ela particularmente adorava médicos (são sempre uns bofes de arrazar)...