sou resistente para adeuses, não que não os dê, é que espero sinceramente o retorno daqueles de que me despeço.
sei, é inocência minha pensar que todos voltarão para a minha alegria...
carrego, assim, essa profunda tristeza da profunda alegria que tive.
- saudade.
e seguidamente choro por ter sido feliz com aqueles que já foram para longe.
me dou conta de que não sei exatamente para onde vamos, desse jeito, mas há momentos em que tudo parece tomar um rumo.
e esse rumo não fica ao norte ou ao sul, fica no futuro, nas horas, nos dias, nos anos a nossa frente...
podemos deter mínimos fragmentos de tempo: em nossa memória, em nossos olhos...
fotos para quê, se temos nossas mãos para o carinho, nossos olhos para as lágrimas, nosso corpo para o abraço?
talvez resista às despedidas porque retenho sempre a figura dos que amo, aqui, presentes entre as minhas coisas cotidianas...
a presença dos meus ausentes e de quem fui.
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quinta-feira, 13 de novembro de 2014
segunda-feira, 29 de abril de 2013
As coisas acontecem na nossa vida sem ao menos supeitarmos da sua iminência.
É como uma grande barreira, de uma represa enorme, que arrebenta a cada dia.
Não temos como prever, não temos como evitar.
E a vida, ao cabo, é isso: lidar com as imprevisões...
Você não sabe. Não sabe quando vai perder o emprego, a cabeça, os documentos, o jornal matinal, a hora, o pai ou a mãe.
Mas uma certeza podemos ter; um dia tudo isso acontecerá.
Pode ser hoje, ou amanhã.
É inexorável e é da vida.
Aos poucos vamos aprendendo a aceitar esse mistério, a ser respeitoso com isso a que alguns dão o nome de destino, outros de tempo e outros de fortuna.
Você vai fazer o quê frente ao inevitável? Chorar como uma criança? Calar como um estóico? Brigar pelo que não têm solução?
E no fim percebe-se que o melhor a fazer é juntar os cacos e continuar em frente. Do jeito que é possível, com o que se tem em mãos no momento...
É assim que nascem os heróis: do improviso, do medo do que se apresentará no próximo instante e da decisão de dar o passo a esse futuro incerto.
É como uma trilha escura, pela qual carregamos um pequena lanterna que ilumina o mínimo possível.
.
E não adianta fugir dos medos.
Não adianta fugir das situações que você não resolveu.
Um dia o tigre se porá em sua frente e você terá que domá-lo.
E aí será da forma mais difícil, da forma mais dolorosa.
E não importa quantas lágrimas correrão. Elas lavarão e cicatrizarão as feridas do passado para possibilitar um futuro melhor.
Quanto mais jovem o tigre, mais fácil adestrá-lo, amansá-lo.
Correr não resolve.
Fique e enfrente.
É como uma grande barreira, de uma represa enorme, que arrebenta a cada dia.
Não temos como prever, não temos como evitar.
E a vida, ao cabo, é isso: lidar com as imprevisões...
Você não sabe. Não sabe quando vai perder o emprego, a cabeça, os documentos, o jornal matinal, a hora, o pai ou a mãe.
Mas uma certeza podemos ter; um dia tudo isso acontecerá.
Pode ser hoje, ou amanhã.
É inexorável e é da vida.
Aos poucos vamos aprendendo a aceitar esse mistério, a ser respeitoso com isso a que alguns dão o nome de destino, outros de tempo e outros de fortuna.
Você vai fazer o quê frente ao inevitável? Chorar como uma criança? Calar como um estóico? Brigar pelo que não têm solução?
E no fim percebe-se que o melhor a fazer é juntar os cacos e continuar em frente. Do jeito que é possível, com o que se tem em mãos no momento...
É assim que nascem os heróis: do improviso, do medo do que se apresentará no próximo instante e da decisão de dar o passo a esse futuro incerto.
É como uma trilha escura, pela qual carregamos um pequena lanterna que ilumina o mínimo possível.
.
E não adianta fugir dos medos.
Não adianta fugir das situações que você não resolveu.
Um dia o tigre se porá em sua frente e você terá que domá-lo.
E aí será da forma mais difícil, da forma mais dolorosa.
E não importa quantas lágrimas correrão. Elas lavarão e cicatrizarão as feridas do passado para possibilitar um futuro melhor.
Quanto mais jovem o tigre, mais fácil adestrá-lo, amansá-lo.
Correr não resolve.
Fique e enfrente.
terça-feira, 12 de março de 2013
mudez
Depois de uma pequena digressão que iniciou com a causa do Big Bang, passava pela extinção dos dinossauros e chegava às tendências obscurantistas das igrejas cristãs neopentecostais, ele se viu obrigado a fumar.
Fumar, fumar... Não havia nada melhor para o momento. Aliás, não havia outra coisa a se fazer. Deitados na cama, nus, o que mais existia entre ambos eram assuntos assexuados.
De pé, a beira da janela entre-aberta, acendia um cigarro. Resmungava sobre o tempo nublado e levemente chuvoso que há dias ocupava o seu humor. Ouvia que ela, na cama, ressonava levemente, dormindo entre um piscar de olhos e outro.
"Penso que essa chuva não vá parar tão cedo..."
"É sempre assim nessa época. Não é novidade..."
A falta de assunto pesava toneladas e criava um clima estranho, como se os dois não se conhecessem mais tão bem quanto antes. Entrava pela janela um leve vento frio, que raspava o seu flanco e fluía contra ela, na cama. Um arrepio gostoso descia da região dorsal até atrás do joelho esquerdo, fazendo os pelos se eriçarem prazerosamente.
Essa falta de assunto causava-lhe agonia e parecia ser preenchida com olhares avaliadores, profundos, que tentavam sondar o seu íntimo. Não se sentia à vontade.
"Não acha estranho isso tudo?"
"Isso o que? Nossa mudez?"
"Sim. Essa mudez. Não éramos assim. Conversávamos mais. Sei lá."
A explicitação do que o incomodava era uma tentativa de se sentir menos deslocado no ambiente. Pensava em pôr a roupa e ir embora. Descer para o café no térreo e beber litros de capuccino.
"Talvez tenhamos intimidade suficiente para nos permitir não falar mais nada..."
Essa frase, solta depois de uma pausa longa soou como um tiro. É como se fosse tão, mas tão evidente que nunca percebeu jazer sob seu nariz.
Verdade.
Eram tão íntimos que não precisavam mais de palavras. Elas já eram inúteis para mensurar o que possuíam.
E então, dali em diante, ouvia-se apenas a chuva.
Fumar, fumar... Não havia nada melhor para o momento. Aliás, não havia outra coisa a se fazer. Deitados na cama, nus, o que mais existia entre ambos eram assuntos assexuados.
De pé, a beira da janela entre-aberta, acendia um cigarro. Resmungava sobre o tempo nublado e levemente chuvoso que há dias ocupava o seu humor. Ouvia que ela, na cama, ressonava levemente, dormindo entre um piscar de olhos e outro.
"Penso que essa chuva não vá parar tão cedo..."
"É sempre assim nessa época. Não é novidade..."
A falta de assunto pesava toneladas e criava um clima estranho, como se os dois não se conhecessem mais tão bem quanto antes. Entrava pela janela um leve vento frio, que raspava o seu flanco e fluía contra ela, na cama. Um arrepio gostoso descia da região dorsal até atrás do joelho esquerdo, fazendo os pelos se eriçarem prazerosamente.
Essa falta de assunto causava-lhe agonia e parecia ser preenchida com olhares avaliadores, profundos, que tentavam sondar o seu íntimo. Não se sentia à vontade.
"Não acha estranho isso tudo?"
"Isso o que? Nossa mudez?"
"Sim. Essa mudez. Não éramos assim. Conversávamos mais. Sei lá."
A explicitação do que o incomodava era uma tentativa de se sentir menos deslocado no ambiente. Pensava em pôr a roupa e ir embora. Descer para o café no térreo e beber litros de capuccino.
"Talvez tenhamos intimidade suficiente para nos permitir não falar mais nada..."
Essa frase, solta depois de uma pausa longa soou como um tiro. É como se fosse tão, mas tão evidente que nunca percebeu jazer sob seu nariz.
Verdade.
Eram tão íntimos que não precisavam mais de palavras. Elas já eram inúteis para mensurar o que possuíam.
E então, dali em diante, ouvia-se apenas a chuva.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Os novos dias eram como se fossem um eterno desfazer-se.
Desfazer-se do que era antes e assumir uma nova postura. Como se no tempo e espaço percorrido, uma metamorfose se processava.
Como se a cada passo caísse um pouco daquilo que já havia sido; como se um novo ser nascia a cada segundo.
Como se de uma casca ou de um casulo, emergisse um novo habitante da Terra.
A sensação de ir ao encontro do futuro, e não apenas de ficar parado esperando que ele chegasse era exatamente essa.
Como se a consequência dessa ação de progresso espacial vinha acompanhada desse sabor de novidade.
Conseguia se comparar às borboletas, mariposas ou até mesmo às árvores. Via que fazia parte da mesma Natureza dinâmica, fluída, que não se contentava em permanecer, mas sim em mudar, mudar sempre, se tornando sempre igual e diferente...
Computava muito das ocorrências aos sentimentos. Eram eles que o impeliam a andar para frente e não para trás.
E não se referia somente ao Amor. Se referia a um sentimento de ânimo. À vontade de amar, de beijar, de descobrir, de saber, de ir, simplesmente.
Amar era sempre bom, ainda mais quando era um sentimento compartilhado. Com o mundo, com quem desejasse e precisasse do seu beijo, da sua mão, do seu carinho.
A Vida, acreditava, era pequena sem a partilha. Mas não aquela partilha por obrigação, como pregam religiões, mas aquela desprendida, sincera, vinda do canto mais profundo do ser.
A incompreensão era só mais uma forma de se negar à pequenez do dever-ser.
A própria partilha era o desfazimento do egoísmo que todo sentimento bom reclama para si.
No fim restava a mudança, imperando sobre o tempo e sobre o ser.
Sentir e fazer o Mundo feliz - estava ali a missão!
Desfazer-se do que era antes e assumir uma nova postura. Como se no tempo e espaço percorrido, uma metamorfose se processava.
Como se a cada passo caísse um pouco daquilo que já havia sido; como se um novo ser nascia a cada segundo.
Como se de uma casca ou de um casulo, emergisse um novo habitante da Terra.
A sensação de ir ao encontro do futuro, e não apenas de ficar parado esperando que ele chegasse era exatamente essa.
Como se a consequência dessa ação de progresso espacial vinha acompanhada desse sabor de novidade.
Conseguia se comparar às borboletas, mariposas ou até mesmo às árvores. Via que fazia parte da mesma Natureza dinâmica, fluída, que não se contentava em permanecer, mas sim em mudar, mudar sempre, se tornando sempre igual e diferente...
Computava muito das ocorrências aos sentimentos. Eram eles que o impeliam a andar para frente e não para trás.
E não se referia somente ao Amor. Se referia a um sentimento de ânimo. À vontade de amar, de beijar, de descobrir, de saber, de ir, simplesmente.
Amar era sempre bom, ainda mais quando era um sentimento compartilhado. Com o mundo, com quem desejasse e precisasse do seu beijo, da sua mão, do seu carinho.
A Vida, acreditava, era pequena sem a partilha. Mas não aquela partilha por obrigação, como pregam religiões, mas aquela desprendida, sincera, vinda do canto mais profundo do ser.
A incompreensão era só mais uma forma de se negar à pequenez do dever-ser.
A própria partilha era o desfazimento do egoísmo que todo sentimento bom reclama para si.
No fim restava a mudança, imperando sobre o tempo e sobre o ser.
Sentir e fazer o Mundo feliz - estava ali a missão!
sábado, 27 de outubro de 2012
verão
"nos desencontros de tantos abraços vazios, sempre há sentimento.
era simples: não deveriam ser aqueles."
E quando o tempo passou, ele viu que era somente certos abraços que desejava. Uma cada vez maior vontade de se deixar envolver...
Nessa época que cheirava a manga e laranjas-do-céu, encontrou o firmamento nos braços de quem jamais imaginara... E sempre querendo mais, andava pelos cantos, choroso.
Choroso pela mais extrema alegria que, inimaginada, fazia-se maior do que supunha possível. Os planos e os motivos do futuro ganhavam contornos simples, modestos, justamente porque o mais ambicionado já possuíam - braços firmes para abraçar e prender pelo tempo que fosse necessário um ao outro.
E iam com sorrisos indisfarçáveis pelas ruas do verão, com o calor do mistério no coração e com luz nos olhos marejados.
O mundo parecia exultar e exuberante oferecia cores vivazes aos dois.
Tomates rubros para a salada, abacaxis perfumados para as tardes de domingo, os kiwis verdes e raiados para os lábios úmidos, as laranjas frescas para os sucos das manhãs, pimentas malagueta, alfaces roxas, árvores pintadas de lilás, o céu azul-profundo... Uma celebração à vida se juntava aos sentimentos, tornando tudo cinematográfico!
Já não era nada gris... Os abraços certos vieram no verão, quentes como a estação.
era simples: não deveriam ser aqueles."
E quando o tempo passou, ele viu que era somente certos abraços que desejava. Uma cada vez maior vontade de se deixar envolver...
Nessa época que cheirava a manga e laranjas-do-céu, encontrou o firmamento nos braços de quem jamais imaginara... E sempre querendo mais, andava pelos cantos, choroso.
Choroso pela mais extrema alegria que, inimaginada, fazia-se maior do que supunha possível. Os planos e os motivos do futuro ganhavam contornos simples, modestos, justamente porque o mais ambicionado já possuíam - braços firmes para abraçar e prender pelo tempo que fosse necessário um ao outro.
E iam com sorrisos indisfarçáveis pelas ruas do verão, com o calor do mistério no coração e com luz nos olhos marejados.
O mundo parecia exultar e exuberante oferecia cores vivazes aos dois.
Tomates rubros para a salada, abacaxis perfumados para as tardes de domingo, os kiwis verdes e raiados para os lábios úmidos, as laranjas frescas para os sucos das manhãs, pimentas malagueta, alfaces roxas, árvores pintadas de lilás, o céu azul-profundo... Uma celebração à vida se juntava aos sentimentos, tornando tudo cinematográfico!
Já não era nada gris... Os abraços certos vieram no verão, quentes como a estação.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
A gola azul com listras brancas da camisa sob o suéter era uma moldura perfeita para aquele rosto mediterrâneo. Combinava com os tons pastéis que faziam parte do corpo do homem que sentava à mesa, a sua frente no café.
Com as mãos postas sobre a mesa, ele brincava com uma colher de chá, apertando uma das pontas, fazendo-a tilintar... Com o canto dos olhos, mirava os dedos inquietos, enquanto sua amiga, de costas para o homem, falava das últimas novidades da repartição.
"Seu café vai esfriar."
"Como?"
"É. Vai esfriar." Repetia a amiga, que não se dava conta da situação ao seu redor.
O homem mediterrâneo percebeu que era avaliado e esboçava corresponder aos olhares. Levou a mão direita à nuca e coçou, sem jeito, o cabelo. Baixou o rosto e ficou esperando um café que logo chegou.
A fascinação não era tanto física. Ou melhor, era. Mas também biológica. Imaginava qual era a ascendência desse ser tão deslocado, tão diverso dos outros todos daquele lugar. Será que pertencia a alguma descendência siciliana, maltesa?
Gostava de pensar nessas coisas e, por vezes, se perdia nesses pensamentos um tanto incabíveis. A sua frente a amiga já notava que ele divagava e perguntava a ele o que estava a pensar.
"Penso que há algum gene grego naquele homem..."
"Como assim!? Você está brincando comigo?!"
E ela iniciou a discursar sobre as absurdidades que ele sempre propunha nos momentos mais "importantes" da vida, como aquele em que discutiam o futuro profissional dela. Ela discorria veementemente sobre essas questões delicadas e ele imaginava que aqueles cabelos negros eram fruto de um gene compartilhado com Heitor, imaginava que os olhos levemente apertados pertenciam a algum ancestral etrusco...
E assim perdido em indagações, ia imaginando uma história para cada pessoa que prendia a sua atenção. Percebia que o homem mediterrâneo possuía uma boca grande, muito bonita, como um catalão...
" Querido, vou indo... Vamos?"
"Claro. Claro! Vamos para onde? Pensei em Barcelona..."
Com as mãos postas sobre a mesa, ele brincava com uma colher de chá, apertando uma das pontas, fazendo-a tilintar... Com o canto dos olhos, mirava os dedos inquietos, enquanto sua amiga, de costas para o homem, falava das últimas novidades da repartição.
"Seu café vai esfriar."
"Como?"
"É. Vai esfriar." Repetia a amiga, que não se dava conta da situação ao seu redor.
O homem mediterrâneo percebeu que era avaliado e esboçava corresponder aos olhares. Levou a mão direita à nuca e coçou, sem jeito, o cabelo. Baixou o rosto e ficou esperando um café que logo chegou.
A fascinação não era tanto física. Ou melhor, era. Mas também biológica. Imaginava qual era a ascendência desse ser tão deslocado, tão diverso dos outros todos daquele lugar. Será que pertencia a alguma descendência siciliana, maltesa?
Gostava de pensar nessas coisas e, por vezes, se perdia nesses pensamentos um tanto incabíveis. A sua frente a amiga já notava que ele divagava e perguntava a ele o que estava a pensar.
"Penso que há algum gene grego naquele homem..."
"Como assim!? Você está brincando comigo?!"
E ela iniciou a discursar sobre as absurdidades que ele sempre propunha nos momentos mais "importantes" da vida, como aquele em que discutiam o futuro profissional dela. Ela discorria veementemente sobre essas questões delicadas e ele imaginava que aqueles cabelos negros eram fruto de um gene compartilhado com Heitor, imaginava que os olhos levemente apertados pertenciam a algum ancestral etrusco...
E assim perdido em indagações, ia imaginando uma história para cada pessoa que prendia a sua atenção. Percebia que o homem mediterrâneo possuía uma boca grande, muito bonita, como um catalão...
" Querido, vou indo... Vamos?"
"Claro. Claro! Vamos para onde? Pensei em Barcelona..."
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
à espera
por que teus olhos estão ausentes do meu setembro? queria-os para me abraçarem com a luz das manhãs ainda frias, em que necessito de cobertores e cheiros de cabelos desgrenhados.
andando pelos passeios, senti o café no ar e as pessoas rindo após o almoço. te procurei e o que encontrava eram olhares sem o mesmo calor dos teus olhos.
é o mistério das maduras manhãs de setembro nessa cidade levantada à beira da água. é o vento frio com o perfume da primavera que traz lembranças de peles agrestes, de tons pastéis... são eles que me deixam saudoso.
como tuas mãos, os galhos das árvores em brotação, com verdes tão claros e reluzentes, acariciam meus cabelos ao andar por entre elas... sinto o som da rua em redor e tudo parece uma doce música. penso em haver escutado tua voz ao longe pedindo que eu te espere, ali no passeio mirando a banca de revistas.
nessa época as pessoas não percebem, mas se tornam mais suscetíveis aos sentimentos agridoces, à doce solidão da espera...
não sou eu, é o mundo.
o cais é convidativo ao abandono do acaso. caminhar lentamente, sentindo o vento frio e o sol quente traz paz e paciência.
a espera (também) nos torna sábios.
andando pelos passeios, senti o café no ar e as pessoas rindo após o almoço. te procurei e o que encontrava eram olhares sem o mesmo calor dos teus olhos.
é o mistério das maduras manhãs de setembro nessa cidade levantada à beira da água. é o vento frio com o perfume da primavera que traz lembranças de peles agrestes, de tons pastéis... são eles que me deixam saudoso.
como tuas mãos, os galhos das árvores em brotação, com verdes tão claros e reluzentes, acariciam meus cabelos ao andar por entre elas... sinto o som da rua em redor e tudo parece uma doce música. penso em haver escutado tua voz ao longe pedindo que eu te espere, ali no passeio mirando a banca de revistas.
nessa época as pessoas não percebem, mas se tornam mais suscetíveis aos sentimentos agridoces, à doce solidão da espera...
não sou eu, é o mundo.
o cais é convidativo ao abandono do acaso. caminhar lentamente, sentindo o vento frio e o sol quente traz paz e paciência.
a espera (também) nos torna sábios.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
não olharão você nos olhos, nem peguntarão se está bem. não darão as mãos, nem oferecerão auxílio.
não chamarão você pelo nome e nem ao menos se interessarão pela sua família.
você nasceu nesse mundo. que corre contra uma invenção chamada tempo, com seres imaginários chamados deuses, com ideologias mofadas chamadas morais.
quando criança você foi inocente para saber ser feliz.
hoje, você busca a felicidade em uma festa, em uma bebida e no dinheiro.
tudo que normalmente não se dá no quotidiano, se dá em festas e afins.
olhares: jamais. dar a mão: nunca. no entanto, em nome da liberdade damos beijos voluptuosos, damos nossos corpos, damos nossas palavras de falso carinho e sorrisos ensaiados.
nossa sociedade e nosso corpo em simbiose perfeita!
ruim? bom? quem julga aquele que se porta como queremos que ele se porte?
você se tornou tão imparcial que isso já se tornou partidarismo.
não notamos o que fazemos... não notamos a quem fazemos!
e quando um dia a espiral acaba, e é o fim, o que foi feito de você, que correu e fez o que disseram?
e quando
não chamarão você pelo nome e nem ao menos se interessarão pela sua família.
você nasceu nesse mundo. que corre contra uma invenção chamada tempo, com seres imaginários chamados deuses, com ideologias mofadas chamadas morais.
quando criança você foi inocente para saber ser feliz.
hoje, você busca a felicidade em uma festa, em uma bebida e no dinheiro.
tudo que normalmente não se dá no quotidiano, se dá em festas e afins.
olhares: jamais. dar a mão: nunca. no entanto, em nome da liberdade damos beijos voluptuosos, damos nossos corpos, damos nossas palavras de falso carinho e sorrisos ensaiados.
nossa sociedade e nosso corpo em simbiose perfeita!
ruim? bom? quem julga aquele que se porta como queremos que ele se porte?
você se tornou tão imparcial que isso já se tornou partidarismo.
não notamos o que fazemos... não notamos a quem fazemos!
e quando um dia a espiral acaba, e é o fim, o que foi feito de você, que correu e fez o que disseram?
e quando
domingo, 10 de junho de 2012
ele queria chegar próximo da perfeição...
porém, sempre esquecia que era somente um homem.
como atingir esses altos objetivos? como conseguir realizar tanta sublimação?
ao fim de repetidas tentivas, acabava por errar ainda mais.
...
por não querer ferir, não falava a verdade que doíria...
por não querer ser grosseiro, não dizia não...
por não querer ofender, deixava passar a contrariedade...
...
não via que nesses pontos também agir assim era um erro.
realmente poucos o entendiam.
quebrou corações, perdeu amizades, foi traído...
ainda que o apontassem, não possuía inimigos. considerava a inimizade uma perda de tempo.
regar maus sentimentos não traz paz, não compra sossego.
vigiar a mente para sempre odiar alguém que partilha da humanidade é envenenar-se.
e ainda nesse ponto não o compreendiam - e por isso se afastavam:
"um homem sem inimigos não merece a confiança de ninguém."
porém, sempre esquecia que era somente um homem.
como atingir esses altos objetivos? como conseguir realizar tanta sublimação?
ao fim de repetidas tentivas, acabava por errar ainda mais.
...
por não querer ferir, não falava a verdade que doíria...
por não querer ser grosseiro, não dizia não...
por não querer ofender, deixava passar a contrariedade...
...
não via que nesses pontos também agir assim era um erro.
realmente poucos o entendiam.
quebrou corações, perdeu amizades, foi traído...
ainda que o apontassem, não possuía inimigos. considerava a inimizade uma perda de tempo.
regar maus sentimentos não traz paz, não compra sossego.
vigiar a mente para sempre odiar alguém que partilha da humanidade é envenenar-se.
e ainda nesse ponto não o compreendiam - e por isso se afastavam:
"um homem sem inimigos não merece a confiança de ninguém."
segunda-feira, 9 de abril de 2012
a delicadeza das notas do piano eram tão semelhantes a tua pele de manhã cedo
e quando o sol já estava se pondo lá no fim do lago, deixando o dia afogueado, pareciam tuas palavras em meus ouvidos - quentes e lindas
quando não te tenho, ouço as músicas dramáticas e apaixonadas
é porque preparo para tua vinda as alegres, preparo meus olhos, minhas mãos, minha boca
aliás, em cada manhã ofereço o que penso a ti, como uma prece
minha crença no sol de cada dia é a crença em ti
não me pergunte como, não o sei
nem por que, igualmente é assim
a espera serena, à margem do comum, distante da realidade
próxima do coração (não do meu) me faz cada vez ser mais lúcido para alcançar o que sonhei para ti e para mim.
e quando o sol já estava se pondo lá no fim do lago, deixando o dia afogueado, pareciam tuas palavras em meus ouvidos - quentes e lindas
quando não te tenho, ouço as músicas dramáticas e apaixonadas
é porque preparo para tua vinda as alegres, preparo meus olhos, minhas mãos, minha boca
aliás, em cada manhã ofereço o que penso a ti, como uma prece
minha crença no sol de cada dia é a crença em ti
não me pergunte como, não o sei
nem por que, igualmente é assim
a espera serena, à margem do comum, distante da realidade
próxima do coração (não do meu) me faz cada vez ser mais lúcido para alcançar o que sonhei para ti e para mim.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
A maior parte de nossa vida não vai ser compartilhada.
Nosso mundo, nós "em si mesmos" estamos lá no fundo, guardados muitas vezes para nós próprios.
Quando dizemos, alegamos, afirmamos nossa desculpa perante alguém e reconhecemos dizer a verdade, nos despimos; nos descobrimos (no sentido de "tirar a cobertura").
Mas quando o outro não crê ser o que foi dito a realidade do que se passou conosco?
Não podemos pretender entedimento. Jamais. Mas ao menos compreensão é devida!
Cada pessoa um mundo. Verdade. Mas não são mundos intangíveis, irreais. Estão lá, constituídos na 'alma', gravados na pele, visíveis nos olhos.
Por isso não peço entedimento. Peço compreensão.
Somos completos, únicos, mas passíveis de acréscimos, de diminuição, de compartilhamento, de melhoramentos...
Quando dizemos algo e não escondemos realmente, a dúvida alheia é cruel.
No entanto, suportável.
Nosso mundo, nós "em si mesmos" estamos lá no fundo, guardados muitas vezes para nós próprios.
Quando dizemos, alegamos, afirmamos nossa desculpa perante alguém e reconhecemos dizer a verdade, nos despimos; nos descobrimos (no sentido de "tirar a cobertura").
Mas quando o outro não crê ser o que foi dito a realidade do que se passou conosco?
Não podemos pretender entedimento. Jamais. Mas ao menos compreensão é devida!
Cada pessoa um mundo. Verdade. Mas não são mundos intangíveis, irreais. Estão lá, constituídos na 'alma', gravados na pele, visíveis nos olhos.
Por isso não peço entedimento. Peço compreensão.
Somos completos, únicos, mas passíveis de acréscimos, de diminuição, de compartilhamento, de melhoramentos...
Quando dizemos algo e não escondemos realmente, a dúvida alheia é cruel.
No entanto, suportável.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
pode vociferar contra teus sentidos.
não há mais nada a ser feito.
é simples colocar a culpa em outras pessoas. soa pueril e serve de desculpa pra fracassos.
assumir as próprias falhas não é humano: por isso os deuses foram inventados.
tomar os erros nas mãos e apresentá-los ao mundo requer conhecimento de si mesmo, antes de tudo.
não temos: nem eu, nem tu.
o que me ocorre é parcial: alguns erros os vejo, assumo e calo.
pesa no coração, pesa na mente. no entanto, fere menos àqueles aos quais incriminamos.
não adianta atribuir todas as tuas derrotas a mim ou a outrem: são tuas, apenas. ...
já diziam os estóicos.
não há mais nada a ser feito.
é simples colocar a culpa em outras pessoas. soa pueril e serve de desculpa pra fracassos.
assumir as próprias falhas não é humano: por isso os deuses foram inventados.
tomar os erros nas mãos e apresentá-los ao mundo requer conhecimento de si mesmo, antes de tudo.
não temos: nem eu, nem tu.
o que me ocorre é parcial: alguns erros os vejo, assumo e calo.
pesa no coração, pesa na mente. no entanto, fere menos àqueles aos quais incriminamos.
não adianta atribuir todas as tuas derrotas a mim ou a outrem: são tuas, apenas. ...
já diziam os estóicos.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
coração-curinga
"abre os olhos. levanta e acende a luz que preciso dizer.
me promete que não vamos nos ver mais, que é só por essa noite... sinto muito fazer você acordar agora. me olha nos olhos, e diz que é só hoje.
foi porque senti frio, foi porque eu estava precisando de um abraço. acabei vindo parar em tua cama...
sim, desde que nos conhecemos minhas mãos indicaram que era você quem eu deveria ter encontrado antes. e nosso beijo selou a procura.
meu coração sempre foi um coração-curinga. sempre achei que ele ficaria bem com qualquer pessoa. mas tenho pensado e vejo que não é mais assim... ele só ficará bem contigo, mas preciso ir.
desculpa?
as razões são minhas e não têm lógica. têm só medo. e sabe, não é de você... é só de mim mesmo. volto pelos mesmos passos que vim, você sabe onde eles me levam e por isso vai concordar em eu sair a essa hora da madrugada.
desculpa."
o sol nascia e a névoa se dissipava na cidade. a descida pela escada antiga e a jaqueta na mão que há pouco jazia no encosto da cadeira, pendurada. o corrimão polido de anos, o frio do outono, o cheiro do café passado... descia e pensava.
a vida dava voltas e terminava sempre no mesmo ponto. a primeira noite sempre a última. no canto, tímida, a lágrima e soluço engolido. a porta e a rua. fria, fria sem o abraço, sem o sentimento, sem nada. sem dor.
só a liberdade. fria. solitária esperando por ele na multidão que saía dos prédios...
não era mais o mesmo.
me promete que não vamos nos ver mais, que é só por essa noite... sinto muito fazer você acordar agora. me olha nos olhos, e diz que é só hoje.
foi porque senti frio, foi porque eu estava precisando de um abraço. acabei vindo parar em tua cama...
sim, desde que nos conhecemos minhas mãos indicaram que era você quem eu deveria ter encontrado antes. e nosso beijo selou a procura.
meu coração sempre foi um coração-curinga. sempre achei que ele ficaria bem com qualquer pessoa. mas tenho pensado e vejo que não é mais assim... ele só ficará bem contigo, mas preciso ir.
desculpa?
as razões são minhas e não têm lógica. têm só medo. e sabe, não é de você... é só de mim mesmo. volto pelos mesmos passos que vim, você sabe onde eles me levam e por isso vai concordar em eu sair a essa hora da madrugada.
desculpa."
o sol nascia e a névoa se dissipava na cidade. a descida pela escada antiga e a jaqueta na mão que há pouco jazia no encosto da cadeira, pendurada. o corrimão polido de anos, o frio do outono, o cheiro do café passado... descia e pensava.
a vida dava voltas e terminava sempre no mesmo ponto. a primeira noite sempre a última. no canto, tímida, a lágrima e soluço engolido. a porta e a rua. fria, fria sem o abraço, sem o sentimento, sem nada. sem dor.
só a liberdade. fria. solitária esperando por ele na multidão que saía dos prédios...
não era mais o mesmo.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
assim
sabia que esses dias de outono só serviam para que a carência tomasse conta das vontades. se arrogando dona do corpo remetia-o aos lugares que pareciam familiares a amores passados, histórias futuras, ao costume das mãos.
um quê de abraço se estendia no cais e o vento leve, em beijos frios e apaixonados, incitavam a busca por beijos reais, quentes e sem pudor.
os olhares vinham e batiam contra olhos negros e profundos, que sondavam os peitos alheios. as cores da cidade entravam e invadiam a mente como sol em vitrais e o murmúrio das pessoas a tardinha desaparecia na espera interminável.
sentado, inesperadamente, em um banco antigo de uma praça havia alguém comum. nem feio, nem bonito. os pombos arrulhavam por perto e perdido o olhar também parecia impelido pelo outono à procura de uma pessoa, homem ou mulher - não sabia ao certo. não parecia rico, mas não parecia pobre.
sentou-se próximo e olhava-o. as pernas abertas, com os antebraços apoiados nas coxas e uma mochila nas costas mirava vagamente os prédios até que, cansados de circular ao redor, pousaram a sua frente: nele, no novo elemente do largo, sentado no banco diametralmente oposto.
os cabelos cacheados, levemente dourados, em profusão emolduravam um rosto de tez clara e feições levemente germânicas. olhando uma vez e outra e outra, começou a esboçar um sorriso, tímido.
passavam músicos tocando por ali e ia anoitecendo e esfriando. depois de minutos de sorrisos trocados, o primeiro levantou e caminhou reto, em frente. sentaria no banco e ao menos o telefone do outro pegaria. no meio do caminho viu que uma menina chegou enquanto pessoas passavam e se sentava ao lado do menino e que estava extremamente junta a ele... e que estavam esboçando um beijo. o menino tinha ainda as pupilas voltadas para ele e a boca nela.
despertou uma indignação e uma inércia. parado no meio da praça ele viu ambos saírem de mãos. foi até o banco em que o menino estava sentado e encontrou um papel com um número escrito: "me liga"...
guardou em seu bolso lateral da calça.
um quê de abraço se estendia no cais e o vento leve, em beijos frios e apaixonados, incitavam a busca por beijos reais, quentes e sem pudor.
os olhares vinham e batiam contra olhos negros e profundos, que sondavam os peitos alheios. as cores da cidade entravam e invadiam a mente como sol em vitrais e o murmúrio das pessoas a tardinha desaparecia na espera interminável.
sentado, inesperadamente, em um banco antigo de uma praça havia alguém comum. nem feio, nem bonito. os pombos arrulhavam por perto e perdido o olhar também parecia impelido pelo outono à procura de uma pessoa, homem ou mulher - não sabia ao certo. não parecia rico, mas não parecia pobre.
sentou-se próximo e olhava-o. as pernas abertas, com os antebraços apoiados nas coxas e uma mochila nas costas mirava vagamente os prédios até que, cansados de circular ao redor, pousaram a sua frente: nele, no novo elemente do largo, sentado no banco diametralmente oposto.
os cabelos cacheados, levemente dourados, em profusão emolduravam um rosto de tez clara e feições levemente germânicas. olhando uma vez e outra e outra, começou a esboçar um sorriso, tímido.
passavam músicos tocando por ali e ia anoitecendo e esfriando. depois de minutos de sorrisos trocados, o primeiro levantou e caminhou reto, em frente. sentaria no banco e ao menos o telefone do outro pegaria. no meio do caminho viu que uma menina chegou enquanto pessoas passavam e se sentava ao lado do menino e que estava extremamente junta a ele... e que estavam esboçando um beijo. o menino tinha ainda as pupilas voltadas para ele e a boca nela.
despertou uma indignação e uma inércia. parado no meio da praça ele viu ambos saírem de mãos. foi até o banco em que o menino estava sentado e encontrou um papel com um número escrito: "me liga"...
guardou em seu bolso lateral da calça.
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