terça-feira, 27 de setembro de 2011

ao meio dia

teus lírios em minhas mãos
como grandes juncos que se mexiam na lagoa
o vento do sul te trazia aos meus dedos
e o sal do mar cortava meus lábios:

eu te trazia sobre meu peito,
ardendo, inflamado por noites sem dormir.
teus pesadelos desenhavam caracóis no meu cabelo,
e quando eu buscava o teu beijo: rejeição.

vem! que ainda há tempo
fecha a ferida de sangue,fecha meus olhos, vem!
abre meus poros pra ti.

não importa a distância,
importa meu peito que te quer
importa que minha pele te precisa.
pode vociferar contra teus sentidos.
não há mais nada a ser feito.
é simples colocar a culpa em outras pessoas. soa pueril e serve de desculpa pra fracassos.
assumir as próprias falhas não é humano: por isso os deuses foram inventados.
tomar os erros nas mãos e apresentá-los ao mundo requer conhecimento de si mesmo, antes de tudo.
não temos: nem eu, nem tu.
o que me ocorre é parcial: alguns erros os vejo, assumo e calo.
pesa no coração, pesa na mente. no entanto, fere menos àqueles aos quais incriminamos.
não adianta atribuir todas as tuas derrotas a mim ou a outrem: são tuas, apenas. ...
já diziam os estóicos.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

sinto

é mais fácil não sentir nada.
é simples, fácil, limpo.
só que eu não sei ser assim.
eu sinto.
e isso é porque vivo. não tenho vergonha em admitir. não tenho porque não admitir.
dizer que sinto, e muito, é confessar que sou humano.
que a palavra me dita grosseiramente me dói quando vem de quem eu não queria a ouvir assim.
é dizer que dói gostar e não ser correspondido.
é admitir que sou de carne e não de ferro.
não sentir seria mais fácil. mas sinto muito, sou só humano ainda.
não fui feito pra insipidez. prefiro o tempero.
posso crer que as pessoas não sejam lá grande coisa... mas quem disse que sou muito diferente?
e, de mais a mais, por mais que creia nisso, ainda prefiro amá-las. ser ou não correspondido é um detalhe. o amor sempre foi um sentimento solitário (como, aliás, são todos os demais...).
por isso sinto: porque sou humano.
não sentir é mais fácil e eu prefiro o mais difícil.
sinto muito...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

paisagens carcomidas por lembranças de noite ébrias. assim me pareciam os dias antigos que se perdiam na confusão de pensamentos novos que surgiam como a tua vinda.
a cidade perdera o chão naquela época de paz armada. era uma pax romana esperando pra irromper em notas agudas de clarins furiosos, vorazes de sangue.
o verão ainda ventava pelos parques e lagos da cidade, que em obtusas ruelas estrangulava o coração machucado pelo silêncio, apertado pelos olhares reprovadores...
por fim, quando deflagrada a derradeira batalha as armas foram depostas (pelo cansaço) e a paz do amor pôde triunfar.
coroados de louros, sob o pálio da noite, dançamos sob os arcos de Constantino.
... e o meu corpo de mil fibras feito, cordas, a espera de teus dedos, martelos, que farão elas vibrarem. explodiremos em uma sinfonia de paixão, só a paixão da carne, não amor...

terça-feira, 19 de julho de 2011

uma dosagem muito alta de qualquer produto pode intoxicar.
uma dosagem alta de químicos pode me matar antes de consumir minha consciência que ainda está em você.
eu havia dado todas as pistas de que o hedonismo era nossa saída.
ou você acha que nos apaixonaríamos?
prazer! prazer. prazer...
era pra ser apenas música pop e quisemos que se transformasse em erudita. impossível! impossível!
desde quando a luxúria se traveste em amor?
a química do prazer nos intoxicou e nos fez crer possível esse sentimento.
ahh que tristeza. mas sei que isso é abstinência, como se estivesse em desdrogadição.
nos cheiramos? nos fumamos? nos bebemos... nos comemos... nos mastigamos...
no fim sobra a dor da mordida, a dor do hedonismo.
o vão da crença e a alegria da liberdade.