sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

raridades

me agradam as pedras mais raras, as que têm as cores iluminadas e iridescentes...
me agradam os suspiros mais profundos e sinceros arrancados nas noites quentes do verão...
gosto das palmeiras mais esguias, coroadas de côcos verdes, saudando as nuvens...
gosto das vertigens provadas em teus olhos negros como um abismo misterioso.

e por buscar raridades, como você, andei sempre só,
comigo mesmo, cismado em minha voz,
encerrado em meus sussurros, calados de dor,
e caminhei sempre em lugares planos e retos.

já não quero mais planícies por serem fáceis,
já não quero estar em mim,
não preciso buscar mais raridades:
já as tenho bastantes.

quero você, apenas,
por ser todas as raridades em uma só:
a Opala, o Suspiro, o Verde, o Abismo,
- me basta a raridade que é você.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

sabe a ácido

dançam nas palmas das minhas mãos os reflexos das estrelas do teto do teu quarto. deitados olhamos uma eternidade artificial com copos de vinho merlot equilibrados em cima de livros velhos...
"vamos parar por aqui... é tarde."
lembro de escuridões por onde transitei e de coisas que não queria ter feito pra hoje ser mais perfeito pra você. é inevitável viver e não quero me arrepender de você.
o asfalto acaba passando, além de sobre a rua, por cima do coração. encerra em algum lugar muito profundo uma idéia de quem se poderia ter sido.
os co(r)pos de plástico pelo chão. as carteiras de cigarro vazias pelos cantos. as garrafas de conhaque barato. os energéticos desnecessários e os beijos dentro das bolsas, com gosto de um centavo - metálicos, descartáveis. tudo o que os meus livros velhos e manchados de vinho disseram pra eu não querer... foi inevitável: vivi.
a cidade faz olvidar, inclusive do que não se quer.
livros não têm o mesmo gosto do que se proíbe.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

persistências

e se tudo não passar de um sonho?
um louco delírio de uma mente insana que escolhe quem vai ter a fortuna e quem vai ter a desgraça de conhecer o que se é?
e se não existisse livre arbítrio e se nós estivéssemos fadados a pensar que somos livres? - inteiramente livres até o ponto que esse alguém quer?
você sente seu coração bater... mas é porque ele bate dentro de alguém que não você e porque esse alguém quer que seja assim...
onde estamos e qual a nossa escolha?
quem sobe e quem cai? - você pode mudar isso agora?
somos tigres dentro de jaulas esperando que as trancas se quebrem.
as jaulas que construímos ao nosso redor, que construíram para nós?
a condição humana é fraca, não queremos ser diferentes, no entanto, não somos iguais...
que mente insana pensou isso? a busca pela igualdade impossível: toda tentativa de equalização é o reconhecimento da nossa humanidade, da nossa diferença...
e quando acabamos estamos no ponto em que começamos.
e uma hora, assistindo ao ocaso de um dia, percebemos que a jaula tem paredes etéreas, tem caminhos que levam às nuvens, tem vastas montanhas...
mas já então é tarde: aquele alguém cansou de te ter na mente e você se desvanesce - para sempre.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Antiguidades

Ofuscavam os olhos uma miríade de pequenos sóis e uma claridade, cegante, dava bom dia ao homem aturdido, que acordava em meio a uma pedregosa ravina. Acostumando-se à luz, os olhos já enxergavam as pedras que se erguiam altas em redor, equilibrando-se uma sobre a outra como os malabares dos circenses.
Procurava, ainda deitado na ravina, uma ideia de onde poderia estar. Não encontrava na mente lembrança coerente do que havia ocorrido depois da tempestado no mar. Saíram de Otranto e, ele ao menos, tinha como destino final Mistra. Visitaria o Déspota de Morea, levando novas acerca do tratado secreto com os patrícios locais.
Sentando-se, viu que se aproximavam pessoas, três, que vinham cabisbaixas e sem nada nas mãos. Pensou na possibilidade de ser sobreviventes do mesmo naufrágio que ele, o que descartou logo em seguida, visto ter percebido serem apenas pastores da região. Traziam cajados e trajavam roupas simples e ao serem indagados responderam em um grego que soava estranho ao ouvido do náufrago. Definitivamente não era o romaico da corte bizantina...
Tentavam explicar, gritando, que ali ainda estava em terra do basileu. Mas onde? Provavel que fosse no Meio-dia e não no Épiro... Mas onde? Precisava chegar a tempo com os pergaminhos! Os pergaminhos! Procurando em sua roupa rica e esfarrapada, apalpava-se lembrando da importância dos documentos. E agora perguntava sobre o mar, em que direção ficava? Como foi parar na ravina? E os pastores indicavam com os cajados a direção do oceano.
Pôs-se de pé rapidamente e, estropiado e dolorido, saiu correndo o mais depressa que podia. Correu até cansar. Começou a caminhar e assim permaneceu por mais um tempo, seguindo a ravina que parecia uma chaga aberta no chão, um talho de uma adaga, reta até desembocar sabe-se lá aonde. Ladeavam-na apenas rochas equilibradas toscamente sobre outras e paredões que eram moradias de aves de rapina. Quando acordou o sol estava no zênite; agora faltava pouco para o fim do dia.
Avistou o mar assim que a rovina fez uma leve curva para o poente. Azul, brilhava com os últimos estertores do sol. Ali, no fim da ravina encontrou os corpos dos companheiros e, um pouco para dentro do mar, presa em pedras pontiagudas que um dia habitaram na continuidade da ravina, a galé em frangalhos. As velas rasgadas, os remos partidos, e uma grande pedra enfiada como uma grande presa de javali a estibordo.
Prostrou-se e chorou. O que fazer? Por onde começar a procurar as cartas remanescentes? Aliás, como chegar ao destino e contar tamanha desgraça ao messer Paleólogo?
Atirou-se na água, que dava pela cintura e ávido por uma solução, dirigia-se para a galé que jazia nos esporões da rovina. As últimas luzes do dia deixavam o quadro mais desesperador, emprestavam um ar mais trágico.
Em meio a pensamentos confusos ouviu gritos. Ou melhor, saudações, na sua língua materna. Parou onde estava como que para ouvir melhor. Sim, eram para ele e eram em sua língua. Pareciam vir do céu, não do navio. Soavam ao escurecer e soavam como dentro de uma igreja, como um antigo hino ao Pantocrator.
Chorava copiosamente, parado em meio ao mar. As mãos postas sobre os olhos. Era Miguel que o veio salvar. Era Miguel, o protetor de sua casa!

sábado, 24 de novembro de 2012

sagração

atravessando o teu deserto,
abaixo de teus abismos jazem olhos pretos como o sem fim do universo,
perdido ando neles como ando na luz da manhã morna de abril,
e assistindo as supernovas colapsarem e estrelas brotarem
na íris cor de breu,
penso em ser Rei de um país longinquo,
que confina com tuas espáduas,
e desce ao sul, até o início de tuas axilas,
e que tem os pelos mais finos e luzidios,
mais perfumados e a terra mais macia.
e a coroação, num momento de nudez,
seria em um dia de maio,
naqueles dias em que os jasmineiros se aviltam,
e que nossa pele freme,
e um beijo selaria o meu Domínio.
juraria defender-te dos ventos do sul,
e te amaria quando descesse o norte às nossas peles,
e nos campos de trigo te deitaria,
e como Rei, me ungirias a face com azeite de oliva,
com os dedos mais expressivos,
e com os olhos mais profundos,
olhando do fundo do meu Reino,
do qual seria eternamente servo e senhor,
me ungirias.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

I

o café esfriava na mesa e a chuva caía nos telhados da rua. entre os lábios apertados um cigarro perdido e nas mãos livros enormes e livretos, finos, de conteúdos duvidosos. passar a tarde remoendo memórias de amores póstumos tinha se tornado predileção nos últimos tempos...
flagrava-se a pensar de forma nostálgica de pessoas com as quais podia ter tido um relacionamento sério e, quiçá, existente até os dias atuais.
no entanto, logo previa o fim pois que sabia não ter paciência para pessoas; não possuía essa fina virtude nem mesmo para consigo! imagine quanto para com terceiros!
fumava e bebia o café, que tinha o gosto acentuado pela fumo. os olhinhos levemente puxados, abertos vivazmente, de uma cor marrom-clara, como que decifrava pela primeira vez parágrafos gastos da literatura mundial que jaziam guardados em caixas amontoadas pelos cantos, tal qual múmias em sarcófagos nos depósitos dos museus mundo afora... quantas? dez? uma dúzia? vinte? uma centena?
tirou um Satiricon de uma caixa, um Asno de Ouro de outra, um volume de Júlio Verne de uma terceira, Orwell de outra e assim por diante. imaginava a variedade de mundos que se escondiam naquelas páginas ocultadas em tantas caixas. quem deixara aquelas relíquias para trás, naquele apartamento recém alugado?
bem... não fazia ideia, mas era interessante explorar por dias um tesouro que não lhe pertencia...
perdido em pensamentos assim, de sobressalto, deu-se conta que batiam à porta ferozmente.
"será que era o proprietário das pequenas múmias?"
de qualquer sorte estava decidido a não as devolver sem antes pedir algumas, ao menos emprestadas. levantou-se vagarosamente, pondo um volume de filosofia antiga sobre uma coluna de livros de contos vampirescos e dirigiu-se à porta...
espiou pelo olho mágico: alguém de chapéu e com a cabeça abaixada, de modo que não conseguia ver o rosto, postava-se a sua porta. - "quem era?"