quarta-feira, 26 de outubro de 2011

prece

como uma prece, desfio minha prosa a você.
como uma prece profunda e sagrada:
reverencio tuas linhas desenhadas no vazio do espaço
e as venero quando próximas, na distância do nosso abraço.
é tanto que sinto e tão pouco que tenho - me frustra não poder esperar.
o tempo trai o sentido da ausência:
se prolonga desde a eternidade,
me prolonga até você e me lembra de mim.
sou eu, apenas eu.
uma prece a mim e que ainda não é.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

paradoxo

pode o meu coração traçar os paralelos que teus pés seguem?
podem os meus olhos buscar meridianos para ser teus guias?
no paralalelo 30º perdi o senso e no teu Trópico de Capricórnio havia desertos...
ainda procuro nuvens, selvas, oceanos e praias em teu corpo distante...
mãe de meus dedos desesperados,
pai de todas as marchas infindáveis,
me reconduz a ti,
me afasta de tua boca,
me aproxima do teu ventre que é eterno o meu desejo.
me empurra para os canions mais profundos,
quero os mistérios dos olhos cor do Caribe,
teu cheiro de almíscar inebria os desavisados.
quero para sempre a distância que nos estreita.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

ao meio dia

teus lírios em minhas mãos
como grandes juncos que se mexiam na lagoa
o vento do sul te trazia aos meus dedos
e o sal do mar cortava meus lábios:

eu te trazia sobre meu peito,
ardendo, inflamado por noites sem dormir.
teus pesadelos desenhavam caracóis no meu cabelo,
e quando eu buscava o teu beijo: rejeição.

vem! que ainda há tempo
fecha a ferida de sangue,fecha meus olhos, vem!
abre meus poros pra ti.

não importa a distância,
importa meu peito que te quer
importa que minha pele te precisa.
pode vociferar contra teus sentidos.
não há mais nada a ser feito.
é simples colocar a culpa em outras pessoas. soa pueril e serve de desculpa pra fracassos.
assumir as próprias falhas não é humano: por isso os deuses foram inventados.
tomar os erros nas mãos e apresentá-los ao mundo requer conhecimento de si mesmo, antes de tudo.
não temos: nem eu, nem tu.
o que me ocorre é parcial: alguns erros os vejo, assumo e calo.
pesa no coração, pesa na mente. no entanto, fere menos àqueles aos quais incriminamos.
não adianta atribuir todas as tuas derrotas a mim ou a outrem: são tuas, apenas. ...
já diziam os estóicos.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

sinto

é mais fácil não sentir nada.
é simples, fácil, limpo.
só que eu não sei ser assim.
eu sinto.
e isso é porque vivo. não tenho vergonha em admitir. não tenho porque não admitir.
dizer que sinto, e muito, é confessar que sou humano.
que a palavra me dita grosseiramente me dói quando vem de quem eu não queria a ouvir assim.
é dizer que dói gostar e não ser correspondido.
é admitir que sou de carne e não de ferro.
não sentir seria mais fácil. mas sinto muito, sou só humano ainda.
não fui feito pra insipidez. prefiro o tempero.
posso crer que as pessoas não sejam lá grande coisa... mas quem disse que sou muito diferente?
e, de mais a mais, por mais que creia nisso, ainda prefiro amá-las. ser ou não correspondido é um detalhe. o amor sempre foi um sentimento solitário (como, aliás, são todos os demais...).
por isso sinto: porque sou humano.
não sentir é mais fácil e eu prefiro o mais difícil.
sinto muito...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

paisagens carcomidas por lembranças de noite ébrias. assim me pareciam os dias antigos que se perdiam na confusão de pensamentos novos que surgiam como a tua vinda.
a cidade perdera o chão naquela época de paz armada. era uma pax romana esperando pra irromper em notas agudas de clarins furiosos, vorazes de sangue.
o verão ainda ventava pelos parques e lagos da cidade, que em obtusas ruelas estrangulava o coração machucado pelo silêncio, apertado pelos olhares reprovadores...
por fim, quando deflagrada a derradeira batalha as armas foram depostas (pelo cansaço) e a paz do amor pôde triunfar.
coroados de louros, sob o pálio da noite, dançamos sob os arcos de Constantino.