quinta-feira, 13 de novembro de 2014

sou resistente para adeuses, não que não os dê, é que espero sinceramente o retorno daqueles de que me despeço.
sei, é inocência minha pensar que todos voltarão para a minha alegria...
carrego, assim, essa profunda tristeza da profunda alegria que tive.
 - saudade.
e seguidamente choro por ter sido feliz com aqueles que já foram para longe.
me dou conta de que não sei exatamente para onde vamos, desse jeito, mas há momentos em que tudo parece tomar um rumo.
e esse rumo não fica ao norte ou ao sul, fica no futuro, nas horas, nos dias, nos anos a nossa frente...
podemos deter mínimos fragmentos de tempo: em nossa memória, em nossos olhos...
fotos para quê, se temos nossas mãos para o carinho, nossos olhos para as lágrimas, nosso corpo para o abraço?
talvez resista às despedidas porque retenho sempre a figura dos que amo, aqui, presentes entre as minhas coisas cotidianas...
a presença dos meus ausentes e de quem fui.

quinta-feira, 27 de março de 2014

nos afogamos em beijos junto com o sol que se afogava na água do rio
doendo o corpo, fim do dia doído
de tanto amar a Terra,
e os beijos e as carícias quentes.

estrepitoso, o silêncio ofegava,
e o sol nos deixava sozinhos, no escuro,
entre nossos peitos o vazio, sem luz,
e as bocas unidas vorazmente.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

sob condição

amar sob condição não é amar.
ter amor àquele que nos é útil não é ter amor.
amar pessoas esperando que elas sejam perfeitas não é amar.
amor a uma idéia de pessoa não é amor.
amar a beleza de alguém não é amar.
confundir amor com altruísmo é não saber o que é amor.
amar porque é da mesma religião não é amar.
supor que o amor é apenas sexo é não saber o que é o amor.
amar uma parte não é amar a verdade.
amor não tem direção, não mira o alvo, não deseja ser sentido por um alguém determinado, acabado, polido e perfeito.
amar não é ter piedade, não é compaixão, não é amar o sujeito ideal.
esse sentimento é mais, é além.
amor é amor pela realidade - nua e crua - pelo que a pessoa é.
amar é ver o outro e aceitar profundamente tudo o que há de bom e o que há de "ruim", simplesmente porque é um sentimento tão grande que todo os "adereços" não importam.
não se tem amor pela metade: ou é amor ou não é. não há amor por alguém que é negro, se não se ama a cor escura juntamente com a pessoa. não se ama um homossexual se junto com esse amor não vem a aceitação. não se ama alguém feio se não aceitar sua feiura. não se ama um baixinho, se não se amar sua pouca estatura. não se ama o outro sem aceitá-lo e amá-lo por inteiro.
amar pela metade não é amar.
amor sob condição não é amor.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

serra do esquecimento

todas as disformias do espírito se ajuntavam na tardinha... como um ciciar de cigarras que começava de leve, baixinho, e ia ficando estridente, estridulando pensamentos agudos, desesperos sem-fim, revoluções...
e numa tarde quente de verão, abafada e cheia de vapores, notou o sol caindo por entre nuvens finas, que se manchavam de cor de ouro: lembra de ter subido daquela direção, inquieto, a procura das riquezas, das pedras que se alojavam no seio daquelas outras duras e empinadas...
fazia tempo e não havia encontrado nada, nem riqueza, nem pedras raras, nem ouro... mas ficara por ali, naquela cidade. 
tinha encontrado, se é que podia dizer dessa forma, alguém com que compartilhar a sua pobreza, ou antes, o seu desencontro... não sabia bem como aconteceu: se achou ou foi achado; apenas que aconteceu num sem fim de tempo, que todo somado foi dar no dia de hoje (quando já ama).
uma noite quente, logo quando veio de uma planície em que procurava raridades, encontrou uma de outro tipo que não esperava. em um posto velho de beira de estrada... foi só a olhar para esquecer todo o resto da vida de antes... mas veio junto o medo, galopando num sorriso, montado no vento fino e quente que soprava...
"mais?" sim, mais "água". a noite quente levantava os desejos, aquecia a carne. mas ela tinha um ar de anjo... mas, foi mais um "mais?" e ela já era imaginada como um pequeno diabinho, que sorrindo, brincava com o sentimento do caboclo. 
"o que fazer?"
...
olhava e sorria, como saudando os horizontes que tinham o empurrado até ali... sentiu cócegas na cintura descoberta: era uma mão leve e anunciava um abraço firme e um beijo na nuca...
era difícil imaginar a vida sem essa riqueza: todas as outras ficaram desimportantes. a alma só pediu o beijo, só pediu entendimento...
coçando a barba do queixo, virou-se "vamos pro poente? às vezes tenho saudade de ver o que era antes..."

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

começava como num surto
desciam às mãos palavras
corriam rios de memórias
e afundavam a boca em beijos eternos...
onde andavam os lábios, além de na saudade?
enfileirava idéias como soldados em formação
e elas avançavam papel a fora,
deitavam à terra os corpos dos amados,
matavam os corações,
estraçalhavam os semblantes,
cavavam trincheiras para as lágrimas
(ou para o suor)
doíam doíam
cansavam as mãos, os dedos, os pés
que corriam para o sem fim da folha
para o sem fim do mundo
onde estavam todas as memórias?
queria amarrá-las em feixes de papéis
pilhas, volumes, tomos,
uma enciclopédia de si,
uma drama de si,
desciam aos dedos,
que sentiam a ânsia,
o frenesi e o êxtase passado.
lembrar para se esquecer:
esse era o início da linha
e esse o fim.
os sentimentos?
- meios.

domingo, 26 de maio de 2013

o silêncio de dentro da semente guarda o mistério,
o barulho de mais um universo surgindo,
o som de um surdo marcando os passos,
o fim do torpor, o início, o acrotério:

e, superada a dor de romper a casca dura,
impulsa a vontade do exterior a ser desbravado,
e a luz jorrando entre os grãos de terra,
dá a força para enfrentar as agruras.

o silêncio a faz brotar, contorcer-se,
esquivar-se, enraizar-se e aninhar-se,
e onde antes havia somente terra bruta,
silente, do ventre do grão, vem a vida,

frágil, minúscula, eterna:
por amor ao universo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

As coisas acontecem na nossa vida sem ao menos supeitarmos da sua iminência.
É como uma grande barreira, de uma represa enorme, que arrebenta a cada dia.
Não temos como prever, não temos como evitar.
E a vida, ao cabo, é isso: lidar com as imprevisões...
Você não sabe. Não sabe quando vai perder o emprego, a cabeça, os documentos, o jornal matinal, a hora, o pai ou a mãe.
Mas uma certeza podemos ter; um dia tudo isso acontecerá.
Pode ser hoje, ou amanhã.
É inexorável e é da vida.
Aos poucos vamos aprendendo a aceitar esse mistério, a ser respeitoso com isso a que alguns dão o nome de destino, outros de tempo e outros de fortuna.
Você vai fazer o quê frente ao inevitável? Chorar como uma criança? Calar como um estóico? Brigar pelo que não têm solução?
E no fim percebe-se que o melhor a fazer é juntar os cacos e continuar em frente. Do jeito que é possível, com o que se tem em mãos no momento...
É assim que nascem os heróis: do improviso, do medo do que se apresentará no próximo instante e da decisão de dar o passo a esse futuro incerto.
É como uma trilha escura, pela qual carregamos um pequena lanterna que ilumina o mínimo possível.
.
E não adianta fugir dos medos.
Não adianta fugir das situações que você não resolveu.
Um dia o tigre se porá em sua frente e você terá que domá-lo.
E aí será da forma mais difícil, da forma mais dolorosa.
E não importa quantas lágrimas correrão. Elas lavarão e cicatrizarão as feridas do passado para possibilitar um futuro melhor.
Quanto mais jovem o tigre, mais fácil adestrá-lo, amansá-lo.
Correr não resolve.
Fique e enfrente.


terça-feira, 12 de março de 2013

mudez

Depois de uma pequena digressão que iniciou com a causa do Big Bang, passava pela extinção dos dinossauros e chegava às tendências obscurantistas das igrejas cristãs neopentecostais, ele se viu obrigado a fumar.
Fumar, fumar... Não havia nada melhor para o momento. Aliás, não havia outra coisa a se fazer. Deitados na cama, nus, o que mais existia entre ambos eram assuntos assexuados.
De pé, a beira da janela entre-aberta, acendia um cigarro. Resmungava sobre o tempo nublado e levemente chuvoso que há dias ocupava o seu humor. Ouvia que ela, na cama, ressonava levemente, dormindo entre um piscar de olhos e outro.
"Penso que essa chuva não vá parar tão cedo..."
"É sempre assim nessa época. Não é novidade..."
A falta de assunto pesava toneladas e criava um clima estranho, como se os dois não se conhecessem mais tão bem quanto antes. Entrava pela janela um leve vento frio, que raspava o seu flanco e fluía contra ela, na cama. Um arrepio gostoso descia da região dorsal até atrás do joelho esquerdo, fazendo os pelos se eriçarem prazerosamente.
Essa falta de assunto causava-lhe agonia e parecia ser preenchida com olhares avaliadores, profundos, que tentavam sondar o seu íntimo. Não se sentia à vontade.
"Não acha estranho isso tudo?"
"Isso o que? Nossa mudez?"
"Sim. Essa mudez. Não éramos assim. Conversávamos mais. Sei lá."
A explicitação do que o incomodava era uma tentativa de se sentir menos deslocado no ambiente. Pensava em pôr a roupa e ir embora. Descer para o café no térreo e beber litros de capuccino.
"Talvez tenhamos intimidade suficiente para nos permitir não falar mais nada..."
Essa frase, solta depois de uma pausa longa soou como um tiro. É como se fosse tão, mas tão evidente que nunca percebeu jazer sob seu nariz.
Verdade.
Eram tão íntimos que não precisavam mais de palavras. Elas já eram inúteis para mensurar o que possuíam.
E então, dali em diante, ouvia-se apenas a chuva.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Os novos dias eram como se fossem um eterno desfazer-se.
Desfazer-se do que era antes e assumir uma nova postura. Como se no tempo e espaço percorrido, uma metamorfose se processava.
Como se a cada passo caísse um pouco daquilo que já havia sido; como se um novo ser nascia a cada segundo.
Como se de uma casca ou de um casulo, emergisse um novo habitante da Terra.
A sensação de ir ao encontro do futuro, e não apenas de ficar parado esperando que ele chegasse era exatamente essa.
Como se a consequência dessa ação de progresso espacial vinha acompanhada desse sabor de novidade.
Conseguia se comparar às borboletas, mariposas ou até mesmo às árvores. Via que fazia parte da mesma Natureza dinâmica, fluída, que não se contentava em permanecer, mas sim em mudar, mudar sempre, se tornando sempre igual e diferente...
Computava muito das ocorrências aos sentimentos. Eram eles que o impeliam a andar para frente e não para trás.
E não se referia somente ao Amor. Se referia a um sentimento de ânimo. À vontade de amar, de beijar, de descobrir, de saber, de ir, simplesmente.
Amar era sempre bom, ainda mais quando era um sentimento compartilhado. Com o mundo, com quem desejasse e precisasse do seu beijo, da sua mão, do seu carinho.
A Vida, acreditava, era pequena sem a partilha. Mas não aquela partilha por obrigação, como pregam religiões, mas aquela desprendida, sincera, vinda do canto mais profundo do ser.
A incompreensão era só mais uma forma de se negar à pequenez do dever-ser.
A própria partilha era o desfazimento do egoísmo que todo sentimento bom reclama para si.
No fim restava a mudança, imperando sobre o tempo e sobre o ser.
Sentir e fazer o Mundo feliz - estava ali a missão!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Reflexão I

"Ter propósitos: está aí uma coisa que nunca tive. Aliás, tive e os perdi. Todos um por um.
Lembro de ter propósitos até ter a primeira decepção amorosa. E isso deve ter sido quando tinha apenas seis ou sete anos... Enfim, não lembro."

E sentado, olhando para mim, falava dessa forma da própria vida...

"De mais a mais, tenho preguiça de propósitos. Durmo o dia inteiro e saio a noite. E daí que meu esporte favorito seja caçar? Nunca me imaginei sendo diferente, e ter propósitos requer força de espírito, o que também não tenho."

Falava com tanto vagar que eu conseguia meditar sobre cada sílaba pronunciada. Me imaginava em seu lugar e, por breves instantes, pensava que uma vida assim deveria ser leve...

"Qual seria o meu deus se tivesse um? Preferiria acreditar seguramente em Apolo. É um deus belo (o mais belo de todos), patrono das artes, inspirador de profecias! Queria ter vindo a um mundo onde o surrealismo fosse a regra... O cotidiano me enfastia, me causa náuseas! Rotina? Sim, a tenho e já falei: dormir e caçar. Apenas."

Já olhava com desdém aquela criatura antes mesmo dela abrir a boca e se mostrar acomodada e apática com relação à vida. Agora ainda mais pela fuga imaginária a um mundo surrealista.
Isso servia de lição para eu dar menos ouvidos a felinos, que na minha vida não acrescentaram nada mais do que alergias...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"Filho de chocadeira". Era a frase que gritava em sua cabeça desde antes de abrir os olhos, que doíam profundamente. Era a ressaca, conhecida de anos.
Quando abriu, finalmente, os olhos se viu na cama em meio a um mar de plumas vermelhas da estola da noite anterior e roupas espalhadas pelo quarto todo. E nenhum sinal de mais ninguém dentro do apartamento.
A boca e a garganta secas pediam água. Levantou-se como estava, sem roupas, e caminhou até a cozinha lentamente. A sensação era de como se estivesse caminhando há horas, por léguas sem fim. Passou na sala e viu sapatos, que não conhecia. Parou alguns segundos, os observou (sem forças mesmo para se perguntar de quem seriam - só os observou) e seguiu o trajeto até a fonte de água fria mais próxima, na cozinha.
Chegando a um corredor que levava até a cozinha e até a porta de entrada do apartamento, do outro lado, a viu aberta para o corredor comum do prédio. Uma família vizinha entrava em uma porta qualquer e o avistou, nu. Todos pararam e o observaram e ele os observava de volta, sem entender o porquê da surpresa. Seguiu até a geladeira, pegou uma garrafa d'água e bebeu dali, sem copo e sem maiores cerimônias, afinal estava seco.
A sede era tamanha que mesmo bebendo a água ela parecia não o saciar. Em um impulso estranho ergueu sobre a cabeça a garrafa d'água e tomou um banho ali mesmo, na cozinha. Quando terminou a "ducha", pensou que poderia haver algo estranho consigo. Nunca agira daquela forma. E com a porta da geladeira sendo segurada, meditava sobre o que havia se passado na noite anterior para se encontrar naquele estado. Meditava.
Um som estranho começou a se tornar incômodo. Vinha da rua e, num impulso natural, voltou a cabeça para a janela mais próxima, que estava com as persianas levantada. Viu que era cedo da manhã, pois a luz era tênue, como num amanhecer.
Onde estavam todos? Onde estava seu amigo que dividia o apartamento com ele? Onde estavam seus amigos que saíram com ele para a festa?
Um súbito ânimo o tomou de assalto e, rapidamente, se encontrava em seu quarto procurando pelo celular. No entanto, não o encontrava. Procurou debaixo da cama, no armário, em gavetas, no meio das plumas vermelhas. Nada. Absolutamente nada. Foi quando reconheceu uma música: era o toque do seu aparelho. Procurava, procurava e a música insistia em tocar. Até que encontrou dentro do bolso da jaqueta, que juntamente com o celular tinha algo que se parecia com um chiclete mascado e grudento.
"Alô?"
"Oi! Finalmente você atendeu, seu seu..."
"Tudo bem, Janis? Estou acordando agora... onde vocês estão?"
"Agora? Finalmente, não é? Achei que tinha morrido!"
"Ah que exagero! Olha só! É cedo até... nem dormi muito..."
"Como assim? Não é cedo da manhã: está anoitecendo! Você estava dormindo há dois dias!"
"Oi?"
Não conseguia crer. Nunca fez isso. Bom, agora ao menos sabia como era dormir esse tempo todo. Sorrindo foi verificar na agenda do celular.
Sim. Havia dormido dois dias!
Mas algo aconteceu. Estava com roxos que não fazia ideia de onde vinham... E sapatos que não conhecia na sua sala e vizinhos que o encaravam sem absolutamente nenhum motivo!
Algo acontecia no mundo. E ele investigaria!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

raridades

me agradam as pedras mais raras, as que têm as cores iluminadas e iridescentes...
me agradam os suspiros mais profundos e sinceros arrancados nas noites quentes do verão...
gosto das palmeiras mais esguias, coroadas de côcos verdes, saudando as nuvens...
gosto das vertigens provadas em teus olhos negros como um abismo misterioso.

e por buscar raridades, como você, andei sempre só,
comigo mesmo, cismado em minha voz,
encerrado em meus sussurros, calados de dor,
e caminhei sempre em lugares planos e retos.

já não quero mais planícies por serem fáceis,
já não quero estar em mim,
não preciso buscar mais raridades:
já as tenho bastantes.

quero você, apenas,
por ser todas as raridades em uma só:
a Opala, o Suspiro, o Verde, o Abismo,
- me basta a raridade que é você.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

sabe a ácido

dançam nas palmas das minhas mãos os reflexos das estrelas do teto do teu quarto. deitados olhamos uma eternidade artificial com copos de vinho merlot equilibrados em cima de livros velhos...
"vamos parar por aqui... é tarde."
lembro de escuridões por onde transitei e de coisas que não queria ter feito pra hoje ser mais perfeito pra você. é inevitável viver e não quero me arrepender de você.
o asfalto acaba passando, além de sobre a rua, por cima do coração. encerra em algum lugar muito profundo uma idéia de quem se poderia ter sido.
os co(r)pos de plástico pelo chão. as carteiras de cigarro vazias pelos cantos. as garrafas de conhaque barato. os energéticos desnecessários e os beijos dentro das bolsas, com gosto de um centavo - metálicos, descartáveis. tudo o que os meus livros velhos e manchados de vinho disseram pra eu não querer... foi inevitável: vivi.
a cidade faz olvidar, inclusive do que não se quer.
livros não têm o mesmo gosto do que se proíbe.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

persistências

e se tudo não passar de um sonho?
um louco delírio de uma mente insana que escolhe quem vai ter a fortuna e quem vai ter a desgraça de conhecer o que se é?
e se não existisse livre arbítrio e se nós estivéssemos fadados a pensar que somos livres? - inteiramente livres até o ponto que esse alguém quer?
você sente seu coração bater... mas é porque ele bate dentro de alguém que não você e porque esse alguém quer que seja assim...
onde estamos e qual a nossa escolha?
quem sobe e quem cai? - você pode mudar isso agora?
somos tigres dentro de jaulas esperando que as trancas se quebrem.
as jaulas que construímos ao nosso redor, que construíram para nós?
a condição humana é fraca, não queremos ser diferentes, no entanto, não somos iguais...
que mente insana pensou isso? a busca pela igualdade impossível: toda tentativa de equalização é o reconhecimento da nossa humanidade, da nossa diferença...
e quando acabamos estamos no ponto em que começamos.
e uma hora, assistindo ao ocaso de um dia, percebemos que a jaula tem paredes etéreas, tem caminhos que levam às nuvens, tem vastas montanhas...
mas já então é tarde: aquele alguém cansou de te ter na mente e você se desvanesce - para sempre.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Antiguidades

Ofuscavam os olhos uma miríade de pequenos sóis e uma claridade, cegante, dava bom dia ao homem aturdido, que acordava em meio a uma pedregosa ravina. Acostumando-se à luz, os olhos já enxergavam as pedras que se erguiam altas em redor, equilibrando-se uma sobre a outra como os malabares dos circenses.
Procurava, ainda deitado na ravina, uma ideia de onde poderia estar. Não encontrava na mente lembrança coerente do que havia ocorrido depois da tempestado no mar. Saíram de Otranto e, ele ao menos, tinha como destino final Mistra. Visitaria o Déspota de Morea, levando novas acerca do tratado secreto com os patrícios locais.
Sentando-se, viu que se aproximavam pessoas, três, que vinham cabisbaixas e sem nada nas mãos. Pensou na possibilidade de ser sobreviventes do mesmo naufrágio que ele, o que descartou logo em seguida, visto ter percebido serem apenas pastores da região. Traziam cajados e trajavam roupas simples e ao serem indagados responderam em um grego que soava estranho ao ouvido do náufrago. Definitivamente não era o romaico da corte bizantina...
Tentavam explicar, gritando, que ali ainda estava em terra do basileu. Mas onde? Provavel que fosse no Meio-dia e não no Épiro... Mas onde? Precisava chegar a tempo com os pergaminhos! Os pergaminhos! Procurando em sua roupa rica e esfarrapada, apalpava-se lembrando da importância dos documentos. E agora perguntava sobre o mar, em que direção ficava? Como foi parar na ravina? E os pastores indicavam com os cajados a direção do oceano.
Pôs-se de pé rapidamente e, estropiado e dolorido, saiu correndo o mais depressa que podia. Correu até cansar. Começou a caminhar e assim permaneceu por mais um tempo, seguindo a ravina que parecia uma chaga aberta no chão, um talho de uma adaga, reta até desembocar sabe-se lá aonde. Ladeavam-na apenas rochas equilibradas toscamente sobre outras e paredões que eram moradias de aves de rapina. Quando acordou o sol estava no zênite; agora faltava pouco para o fim do dia.
Avistou o mar assim que a rovina fez uma leve curva para o poente. Azul, brilhava com os últimos estertores do sol. Ali, no fim da ravina encontrou os corpos dos companheiros e, um pouco para dentro do mar, presa em pedras pontiagudas que um dia habitaram na continuidade da ravina, a galé em frangalhos. As velas rasgadas, os remos partidos, e uma grande pedra enfiada como uma grande presa de javali a estibordo.
Prostrou-se e chorou. O que fazer? Por onde começar a procurar as cartas remanescentes? Aliás, como chegar ao destino e contar tamanha desgraça ao messer Paleólogo?
Atirou-se na água, que dava pela cintura e ávido por uma solução, dirigia-se para a galé que jazia nos esporões da rovina. As últimas luzes do dia deixavam o quadro mais desesperador, emprestavam um ar mais trágico.
Em meio a pensamentos confusos ouviu gritos. Ou melhor, saudações, na sua língua materna. Parou onde estava como que para ouvir melhor. Sim, eram para ele e eram em sua língua. Pareciam vir do céu, não do navio. Soavam ao escurecer e soavam como dentro de uma igreja, como um antigo hino ao Pantocrator.
Chorava copiosamente, parado em meio ao mar. As mãos postas sobre os olhos. Era Miguel que o veio salvar. Era Miguel, o protetor de sua casa!

sábado, 24 de novembro de 2012

sagração

atravessando o teu deserto,
abaixo de teus abismos jazem olhos pretos como o sem fim do universo,
perdido ando neles como ando na luz da manhã morna de abril,
e assistindo as supernovas colapsarem e estrelas brotarem
na íris cor de breu,
penso em ser Rei de um país longinquo,
que confina com tuas espáduas,
e desce ao sul, até o início de tuas axilas,
e que tem os pelos mais finos e luzidios,
mais perfumados e a terra mais macia.
e a coroação, num momento de nudez,
seria em um dia de maio,
naqueles dias em que os jasmineiros se aviltam,
e que nossa pele freme,
e um beijo selaria o meu Domínio.
juraria defender-te dos ventos do sul,
e te amaria quando descesse o norte às nossas peles,
e nos campos de trigo te deitaria,
e como Rei, me ungirias a face com azeite de oliva,
com os dedos mais expressivos,
e com os olhos mais profundos,
olhando do fundo do meu Reino,
do qual seria eternamente servo e senhor,
me ungirias.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

I

o café esfriava na mesa e a chuva caía nos telhados da rua. entre os lábios apertados um cigarro perdido e nas mãos livros enormes e livretos, finos, de conteúdos duvidosos. passar a tarde remoendo memórias de amores póstumos tinha se tornado predileção nos últimos tempos...
flagrava-se a pensar de forma nostálgica de pessoas com as quais podia ter tido um relacionamento sério e, quiçá, existente até os dias atuais.
no entanto, logo previa o fim pois que sabia não ter paciência para pessoas; não possuía essa fina virtude nem mesmo para consigo! imagine quanto para com terceiros!
fumava e bebia o café, que tinha o gosto acentuado pela fumo. os olhinhos levemente puxados, abertos vivazmente, de uma cor marrom-clara, como que decifrava pela primeira vez parágrafos gastos da literatura mundial que jaziam guardados em caixas amontoadas pelos cantos, tal qual múmias em sarcófagos nos depósitos dos museus mundo afora... quantas? dez? uma dúzia? vinte? uma centena?
tirou um Satiricon de uma caixa, um Asno de Ouro de outra, um volume de Júlio Verne de uma terceira, Orwell de outra e assim por diante. imaginava a variedade de mundos que se escondiam naquelas páginas ocultadas em tantas caixas. quem deixara aquelas relíquias para trás, naquele apartamento recém alugado?
bem... não fazia ideia, mas era interessante explorar por dias um tesouro que não lhe pertencia...
perdido em pensamentos assim, de sobressalto, deu-se conta que batiam à porta ferozmente.
"será que era o proprietário das pequenas múmias?"
de qualquer sorte estava decidido a não as devolver sem antes pedir algumas, ao menos emprestadas. levantou-se vagarosamente, pondo um volume de filosofia antiga sobre uma coluna de livros de contos vampirescos e dirigiu-se à porta...
espiou pelo olho mágico: alguém de chapéu e com a cabeça abaixada, de modo que não conseguia ver o rosto, postava-se a sua porta. - "quem era?"


sábado, 27 de outubro de 2012

verão

"nos desencontros de tantos abraços vazios, sempre há sentimento.
era simples: não deveriam ser aqueles."

E quando o tempo passou, ele viu que era somente certos abraços que desejava. Uma cada vez maior vontade de se deixar envolver...
Nessa época que cheirava a manga e laranjas-do-céu, encontrou o firmamento nos braços de quem jamais imaginara... E sempre querendo mais, andava pelos cantos, choroso.
Choroso pela mais extrema alegria que, inimaginada, fazia-se maior do que supunha possível. Os planos e os motivos do futuro ganhavam contornos simples, modestos, justamente porque o mais ambicionado já possuíam - braços firmes para abraçar e prender pelo tempo que fosse necessário um ao outro.
E iam com sorrisos indisfarçáveis pelas ruas do verão, com o calor do mistério no coração e com luz nos olhos marejados.
O mundo parecia exultar e exuberante oferecia cores vivazes aos dois.
Tomates rubros para a salada, abacaxis perfumados para as tardes de domingo, os kiwis verdes e raiados para os lábios úmidos, as laranjas frescas para os sucos das manhãs, pimentas malagueta, alfaces roxas, árvores pintadas de lilás, o céu azul-profundo... Uma celebração à vida se juntava aos sentimentos, tornando tudo cinematográfico!
Já não era nada gris... Os abraços certos vieram no verão, quentes como a estação.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

"ars gratia artis"

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

ceia

pairavam em alguma nuvem os castelos erguidos durante os tempos de adolescência - que estavam se acabando fazia uns vários anos... e pairavam nas nuvens do cigarro de canela que fumava à beira da janela, com as luzes da cidade ao fundo.
a música, leve, única, dava à atmosfera um tom pastel de uma pintura francesa. os modos e os gestos se confundiam com a beleza dos olhos, molduras perfeita para um espírito inquieto e incessantemente questionador.
era madrugada alta quando, com exíguas roupas - uma cueca e uma camiseta de algodão - , se punha a fumar de pernas cruzadas: um lord... questionava os acontecimentos recentes, de forma preguiçosa e hesitante. questionar? não questionar?
"ahh só havia acontecido... deixemos assim..."
todos se olhavam displicentes mastigando as interrogações e partindo definitivamente para o exaurimento. não valia a pena justificar. não valia a pena perguntar: a noite era dos sentidos e não da razão.
sentir a música, ouvir o silêncio, beijar a beleza. exaurir as formas sem se preocupar com os conteúdos.
hedonismo? às vezes pode se fazer salutar...
as volutas da fumaça do cigarro se enredavam nos cachos de cabelo cor de ouro esmaecido e subiam até aonde a corrente de ar a empurrava parcialmente de volta para dentro do ambiente. os três se olhavam e sorriam, observavam os desenhos feitos pelo fumo, sorriam da incerteza dos sentimentos...
displicente um beijo em cada um, negligente uma carícia no rosto e um sussurro quase musical, as coisas se resumiam à dor da partilha e ao gosto da felicidade pelo prazer.
os três compartilhavam do momento como se o tivessem esperado.
depois a despedida na noite fria.
a beleza consumida e guardada na memória.
a persistência levaria dias a ser guardada nas devidas prateleiras.
mas o quadro francês ainda jazia na parede da sala de estar... com suas cores orquestradas de modo a eternizar a comunhão.